Quando eu olho pra aquela carta, eu vejo mais que palavras. Eu vejo tudo que colocaram em mim desde cedo, em fases marcadas. Uma menina achando que precisava mudar pra ser amada, como se houvesse algo errado em mim, como se eu fosse quebrada.
Senhor Deus, eu me culpava por não receber carinho. Eu achava que o problema era eu no meu caminho. Se eu fosse melhor, mais paciente, mais certa também, talvez eu fosse amada do jeito que eu queria bem.
Eu tentava agradar, fazer tudo direito, mas quando eu errava parecia que tudo se desfez no meu peito. Como se eu nunca fosse suficiente, como se isso me definia, e eu fui me perdendo em mim mesma, dia após dia.
Eu fui me olhando com dureza, com cobrança. Me diminuindo pra sobreviver à lembrança. Porque doía menos me culpar e me calar do que esperar amor e não conseguir alcançar.
Senhor, hoje eu consigo ver com clareza. Eu não era insuficiente na minha natureza. Eu era só uma criança sensível, querendo acolhimento, mas cresci carregando isso no pensamento.
Fora de casa me chamavam de doce, de meiga, mas dentro de casa eu ouvi coisas que me deixaram cheia de dúvida e regra. E isso criou um conflito dentro de mim, entre quem eu sou e o que disseram sobre mim.
Eu cresci chorando muito, mas aprendi a segurar. Porque me ensinaram que sentir era fraquejar. Então eu fui me calando, fui me escondendo, fui me perdendo dentro do que eu tava sentindo e vivendo.
E às vezes eu penso, Senhor… se a versão ruim que falaram de mim é real. Isso me confunde por dentro, me faz duvidar do que é natural. Como se eu tivesse que provar que posso ser amada no olhar, mesmo sem entender por que isso insiste em me pesar.
Mas eu estou aprendendo com o Senhor que eu não era insuficiente. Eu só fui uma criança tentando ser suficiente. E em Ti eu encontro um amor diferente, que não me cobra, não me abandona, não muda com a gente.
Um amor que não vai embora quando eu erro, que me alcança até quando eu me perco. Que não me exige ser perfeita pra permanecer, só me chama de volta quando eu esqueço de viver.
Senhor, eu preciso Te falar… eu vejo em mim coisas que me assustam. Às vezes eu falo duro, cobro demais, e sinto como se antigas feridas ainda me atravessassem sem eu perceber.
E eu tenho medo de repetir o que me feriu em quem eu amo. Eu não quero amor com cobrança, nem com condição. Eu quero amor leve, sem medo no coração.
E quando eu percebo isso em mim, eu fico com medo, mas também vejo que eu não estou mais presa ao mesmo enredo.
Talvez eu não esteja curada ainda, mas eu já não quero continuar na mesma ferida antiga.
Se isso foi aprendido em mim, me ajuda a desaprender. Se isso me feriu, me ajuda a não repetir nem fazer sofrer.
Eu não quero me abandonar pra ser aceita. Nem viver tentando ser perfeita.
Eu entendo aos poucos, devagar, que não preciso me destruir pra tentar me encaixar.
Porque em Ti eu encontro um amor que me sustém, um amor que não depende do que eu faço pra ser alguém
E mesmo quando eu erro, o Senhor continua.