A fumaça saiu da minha boca
sem pedir licença pra voar.
Fez um santo, fez um monstro,
fez o mundo se entortar.
Era louca porque era livre
ou livre por não se explicar?
Quem inventou o que é normal
tinha medo de se encontrar?
Perguntei quem era louco.
Ninguém quis responder.
Toda regra tem um dono
com alguma coisa a esconder.
Quem é louco?
Quem é normal?
Quem foi que riscou a linha
entre o certo e o anormal?
Se a fumaça muda a forma
e continua sendo fumaça,
quem me diz onde termina
a loucura
e começa a máscara?
O normal vestiu gravata.
A loucura foi trabalhar.
Um bateu cartão às oito.
O outro aprendeu a disfarçar.
Encontrei os dois no espelho
dividindo o mesmo olhar.
Um querendo ser aceito.
Outro querendo respirar.
Perguntei qual deles era eu.
Os dois riram de uma vez.
Quem passa a vida sendo normal
enlouquece sem perceber.
Quem é louco?
Quem é normal?
Quem foi que riscou a linha
entre o certo e o anormal?
Se a fumaça muda a forma
e continua sendo fumaça,
quem me diz onde termina
a loucura
e começa a máscara?
Normal é loucura
quando todo mundo faz.
Loucura vira regra
quando ninguém pergunta mais.
Toda certeza põe gravata.
Toda dúvida anda descalça.
Quando a luz se apaga,
quem é que sobra sem máscara?
A fumaça sobe.
Entorta.
Dança.
Some.
Nunca pediu licença.
Nunca pediu desculpa.
Nunca quis saber
se era normal.
Quem é louco?
Quem é normal?
Quem foi que inventou a linha
e me deixou do lado de cá?
A fumaça muda a forma
e continua sendo fumaça.
Eu mudo.
Você muda.
O mundo muda.
Só a regra
finge que não passa.
A fumaça sobe.
Eu olho.
Ela muda.
Eu também.
Ela desaparece.
Eu continuo.
Por enquanto.