Se perguntam de onde eu venho,
puxem banco, há-de doer:
nasci com luz dentro do peito
e passei a vida a esconder.
Pois quem brilha ilumina o abismo,
e eu não quero que ninguém
veja o fundo do que o espera —
então guardo a luz também.
(refrão)
Deixo a porta sempre aberta,
nunca digo o adeus final;
minha voz é mansa e mente
só pra te poupar do mal.
Canta comigo, forasteiro,
esta lamúria sem fim:
quem consola não se cura —
quem há-de cuidar de mim?
Servi a um deus que não tem nome,
o que acolhe no limiar;
jurei-lhe abrandar a passagem
de quem precisa atravessar.
Rompi com a ordem, com os meus,
troquei o altar pela estrada;
restou-me a reza feita em verso
e esta alma de porta encostada.
À beira de quem ia morrendo
eu menti: "não dói, é só luz".
E os deixei partir sorrindo
com a mentira que eu produz.
Não minto pra me engrandecer —
minto pra que, ao fim do caminho,
ninguém saia pequeno demais,
nem atravesse sozinho.
(refrão)
Deixo a porta sempre aberta,
nunca digo o adeus final;
minha voz é mansa e mente
só pra te poupar do mal.
Canta comigo, forasteiro,
esta lamúria sem fim:
quem consola não se cura —
quem há-de cuidar de mim?
Prometo pouco, mas o que firmo
nem a morte me faz quebrar;
dobro a verdade por bondade,
porém a palavra é um altar.
Carrego o fardo de quem teve,
e por tê-lo deve zelar:
vou aonde a morte chega cedo
pra que chegue menos amarga ao lar.
E se um dia eu me calar de súbito,
se a voz branda me faltar,
é que a dor me endireitou os ombros
e a luz começa a vazar.
Não chorem — foi o meu ofício:
pôr-me inteiro entre vós e o fim.
Quem consola não se cura…
mas consolar me bastou, enfim.