A morte chegou no churrasco
Com pose de autoridade,
Perguntou quem era o próximo.
Ninguém tinha disponibilidade.
Tinha cerveja na mesa,
Farofa espalhada no chão,
Tinha carne sobre a brasa
E Deus soprando o carvão.
A morte falou: “Tô levando.”
Eu disse: “Calma, mulher,
A linguiça está quase pronta,
Depois a gente vê o que é.”
Se a vida termina hoje,
Amanhã começa outra vez.
Pode trazer outra rodada,
Que eu morro depois das seis.
Morre não!
Muda de endereço!
Termina aqui,
Começa no começo!
Se o céu tiver cerveja,
Guarda uma mesa pra mim.
A morte pode ser vírgula
Onde escreveram “fim”.
A morte ficou meio sem jeito,
Sentou perto do fogão,
Comeu carne, bebeu duas,
Já perdeu a condução.
Disse que tinha uma lista,
Meu nome estava também.
Eu disse: “Guarda essa lista,
Hoje não morre ninguém.”
Deus apareceu mais tarde,
Os orixás vieram também,
O universo mandou recado:
“Se sobrar carne, eu vou também.”
O diabo chegou com gelo,
São Pedro trouxe limão,
E a morte, depois da terceira,
Já batucava no chão.
Morre não!
Muda de endereço!
Termina aqui,
Começa no começo!
Se o céu tiver cerveja,
Guarda uma mesa pra mim.
A morte pode ser vírgula
Onde escreveram “fim”.
Se fui barro, volto barro.
Se fui poeira, viro chão.
Se fui corpo, viro história.
Se fui saudade, canção.
E se depois desta vida
Tiver outra pra encarar,
Que avisem com antecedência:
Tenho umas coisas pra levar.
Uma cadeira de plástico,
Um copo, um velho violão,
Meia dúzia bem gelada
E vontade de confusão.
Porque a vida é muito séria
Pra levar tão a sério assim.
Tem gente explicando o eterno,
Eu prefiro outra gelada pra mim.
Se morrer for outra porta,
Deixa ela destrancada.
Eu atravesso quando chegar
Minha hora nessa estrada.
Só não venha na sobremesa,
Nem no meio do refrão.
Se existe vida depois da vida,
Que comece com um sambão!
Refrão final
Morre não!
Muda de endereço!
Termina aqui,
Começa no começo!
Se o céu tiver churrasco,
Guarda uma mesa pra mim.
A morte pode ser vírgula
Onde escreveram “fim”.
Quando a última brasa apagar,
Não precisa lamentar.
Sopra a fumaça pro alto,
Deixa o vento carregar.
Porque em algum outro canto
Outra brasa vai pegar.
A morte chegou no churrasco
Pensando que vinha buscar.
Comeu, bebeu, caiu no samba...
E resolveu recomeçar.
Breque
— E a lista?
— Que lista?
Coro
Morre não!
Muda de endereço!
Morre não!
Começa no começo!
Falado
Ô morte...
Pega mais uma.
Amanhã a gente conversa.