Conheci a mulher dos meus sonhos
num domingo que não terminou.
Olhos negros, sorriso contido,
alguma coisa em mim despertou.
Trinta cigarros queimando depressa,
seu perfume ficou por ali.
Entre pratos, palavras e gestos,
eu já não era o mesmo que fui.
Eu, que conhecia tantos corpos
sem saber direito o que sentir,
descobri que uma simples presença
pode ir embora e nunca partir.
Ela é a mulher que nunca existiu,
mas existe demais dentro de mim.
Foi embora antes mesmo de chegar,
começou sem poder ter um fim.
Ela é a mulher que nunca existiu,
meu amor que não aconteceu.
E ninguém pode levar de mim
aquilo que nunca foi meu.
Sei tão pouco da vida que leva,
dos seus medos, daquilo que quer.
Sei da mãe que carrega no peito,
de um irmão que se deixou perder.
Sei dos sonhos guardados em silêncio,
da vontade que tem de vencer,
da tristeza escondida nos olhos,
e isso basta para não esquecer.
Nossas estradas tomaram distância,
cada qual foi seguindo a direção.
Há encontros que duram tão pouco
e permanecem uma vida no coração.
Ela é a mulher que nunca existiu,
mas existe demais dentro de mim.
Foi embora antes mesmo de chegar,
começou sem poder ter um fim.
Ela é a mulher que nunca existiu,
meu amor que não aconteceu.
E ninguém pode levar de mim
aquilo que nunca foi meu.
Se eu a tivesse, quem sabe estragasse
o que a distância deixou tão perfeito.
Descobriria seus vícios, manias,
ela descobriria os meus defeitos.
Mas assim ela nunca envelhece,
nunca parte, não diz que acabou.
Continua naquele domingo,
no instante em que tudo mudou.
Hoje deito e não quero dormir,
deixo a noite entrar pela janela.
Vejo a lua carregando tristeza
e descubro que ainda penso nela.
As estrelas continuam brilhando,
a fumaça se perde no céu.
E aprendi, depois daquele encontro,
que amar também pode ser não ter.
Ela é a mulher que nunca existiu,
mas existe demais dentro de mim.
Foi um amor que não teve começo,
por isso não aprendeu a ter fim.
Ela é a mulher que nunca existiu,
meu impossível, meu quase, meu céu.
Nunca chegou a ser minha mulher,
mas fez de mim alguém que a amou.
E quando a noite pergunta por ela,
não preciso explicar onde está.
A mulher que nunca existiu
é justamente
a que não consigo esquecer.