Quando eu morrer,
me embrulhem num jornal.
Quem sabe eu amadureça
antes da página final.
Ainda junto algumas letras,
faço palavras escorrer.
Notícia jogada ao vento,
frase fingindo saber.
Piada sem coerência,
artigo sem opinião.
Uma verdade na manchete,
duas na errata da edição.
Quando eu morrer,
me embrulhem num jornal.
Se ainda estiver verde,
amadureço no final.
Passei a vida nas entrelinhas,
sem chamada principal.
Veja só que ironia:
morto, virei editorial.
Estou apodrecendo em letras.
Preciso sair daqui.
Ninguém me leu enquanto vivo,
agora querem saber de mim.
Serei manchete da minha morte,
mote do cansaço geral:
pútrido, petiz, perdido,
com português impecável.
Polido pelos vernáculos,
pontuado até morrer,
vou servir de sobremesa
a quem não aprendeu a ler.
Quando eu morrer,
me embrulhem num jornal.
Se ainda estiver verde,
amadureço no final.
Passei a vida nas entrelinhas,
sem chamada principal.
Veja só que ironia:
morto, virei editorial.
Tiraram minha intelectualidade.
Disseram: é para o seu bem.
Pensar dá muito trabalho.
Já pensaram por você também.
Livro preto, letras de ouro,
cada página, uma razão.
Uns se ajoelham quando leem,
outros pregam a edição.
Tem púlpito, tem microfone,
tem certeza em promoção.
Quem pergunta cria dúvida.
Quem repete ganha razão.
Preciso gritar!
Mas sem atrapalhar o sermão.
Sou tipografia de mulheres mudas,
nota de pé sem edição.
Tenho Sodoma e Gomorra,
santo, culpa e tentação.
Tenho um Deus dentro do peito
e um defunto na impressão.
Deus-defunto.
Homem-palavra.
Mulher-semente.
Livro nenhum.
Tanta certeza impressa.
E nenhuma pergunta.
Não pertenço ao livro pronto,
nem ao título que me dão.
Morrerei na minha história,
borrando a própria edição.
Vítima de alguma verdade,
carrasco de alguma versão.
Todo mundo sabe tudo
desde que venha em impressão.
Se fui fato, fui notícia.
Se fui mentira, tanto faz.
A edição fecha às onze.
A verdade fecha mais.
Quando eu morrer,
me embrulhem num jornal.
Quem sabe eu amadureça
antes da página final.
Se eu virar manchete um dia,
não me levem muito a mal.
Passei a vida nas entrelinhas.
Morri na página principal.
E quem sou eu?
Não sei.
Pergunte ao jornal.
Amanhã sai a correção.
Hoje...
sou a sobra
do efeito.