Não sei quando atravessei,
Nem o que deixei para trás.
Vi meu corpo ficando longe,
Até não reconhecê-lo mais.
Havia um céu debaixo dos pés,
Um sol esquecido de nascer.
Relógios giravam para dentro,
Sem ter as horas para dizer.
Minha sombra passou por mim,
Com um rosto que reconheci.
Ouvi meu nome em outra voz,
Mas ninguém estava ali.
Procurei Deus no meio do nada,
E o nada olhou para mim.
Não sei se encontrei sua presença
Ou se cheguei depois do fim.
Ainda lá,
Mesmo depois de voltar.
Vi o tempo perder o caminho,
E o silêncio me atravessar.
Ainda lá,
Sem saber onde estou.
Se fui eu quem voltou,
Quem foi que lá ficou?
Vi fantasmas sem lembranças,
Caminhando sem direção.
Alguns tinham os meus olhos,
Outros, a minha solidão.
Uma criança esperava sentada,
Um velho aprendia a nascer.
Os dois levavam minha sombra,
Sem sequer me reconhecer.
Vi a morte passar em silêncio,
Sem me chamar, sem me olhar.
Tentei seguir seus passos,
Mas não havia onde pisar.
Ouvi meu coração ao longe,
Como um tambor sob o mar.
Cada batida me trazia de volta,
Sem dizer para qual lugar.
Abri os olhos no mesmo quarto,
A chuva caía no quintal.
Tudo estava em seu lugar,
Mas nada parecia igual.
No espelho, alguém me observava,
Com os olhos que sempre tive.
Virei o rosto para a janela,
Sem saber qual dos dois vive.
Ainda lá,
Mesmo depois de voltar.
Vi o tempo perder o caminho,
E o silêncio me atravessar.
Ainda lá,
Sem saber onde estou.
Se fui eu quem voltou,
Quem foi que lá ficou?
Não sei se um dia parti,
Nem se consegui regressar.
Ouço meus passos do outro lado,
Mesmo sem sair do lugar.
A chuva parou no quintal,
O espelho deixou de me olhar.
Fechei os olhos por um instante...
E vi meu corpo se afastar.
Ainda lá...