ALMA
Ainda Somos Gente
Eu nasci num país
que aprendeu a sobreviver
antes mesmo de aprender
a perguntar por quê.
Aqui a gente ri da própria dor,
faz festa quando falta quase tudo,
e chama de destino
o que talvez fosse absurdo.
A gente tem memória curta,
mas cicatriz não esquece.
E toda vez que alguém diz
que agora vai ser diferente,
tem uma parte de nós
que acredita...
e outra que já sabe.
Alma...
Eu sou a voz que pede calma
quando o mundo quer gritar.
Mas também sou a voz
que grita
quando já não dá pra suportar.
Porque ser tolerante
não significa ser mudo.
E amar uma terra
não significa fechar os olhos
para tudo.
Eu vejo o sangue
que virou arte.
Vejo a história
que ninguém contou.
Vejo o índio,
o negro,
o imigrante,
o pobre,
o sonhador,
todos tentando descobrir
quem afinal somos nós.
E talvez essa seja
a nossa maior contradição:
um país tão grande
tentando caber
dentro de uma explicação.
Refrão
Brasil!
Você não cabe numa bandeira.
Não cabe num partido.
Não cabe numa fronteira.
Você é a voz de quem ficou,
de quem partiu,
de quem voltou.
É o filho da esperança
que a história quase matou.
Brasil!
Podem mudar os nomes,
podem mudar os discursos.
Mas não conseguem mudar
a alma de quem nasceu
no meio desse absurdo.
Porque antes de sermos direita,
antes de sermos esquerda,
somos gente.
E gente sente.
Gente sangra.
Gente erra.
Gente tenta.
Gente recomeça.
Eu também sou assim.
Às vezes flor.
Às vezes espinho.
Às vezes quero o mundo inteiro.
Às vezes só quero ficar sozinho.
Às vezes sou fé.
Às vezes sou revolta.
Às vezes bato a porta.
Às vezes peço que alguém volte.
Eu sou feita de contradições.
E talvez seja justamente por isso
que eu ainda consiga amar.
Porque quem nunca sofreu
talvez não saiba
o preço de perdoar.
Quem nunca perdeu
talvez não saiba
o valor de encontrar.
E quem nunca teve medo
talvez não saiba
a coragem necessária
para continuar.
Refrão
Brasil!
Você não cabe numa bandeira.
Não cabe num partido.
Não cabe numa fronteira.
Você é o menino da rua,
a mulher na janela,
o velho que ainda acredita,
a voz rouca na favela.
É a música no bar.
É o silêncio depois do jornal.
É o trabalhador voltando pra casa
e dizendo:
“amanhã vai ser melhor.”
E talvez amanhã não seja.
Mas ele levanta.
E talvez ninguém agradeça.
Mas ele levanta.
E talvez ninguém perceba.
Mas ele levanta.
Porque existe uma coisa
que este país nunca conseguiu matar:
a vontade de continuar.
Já fomos escravos.
Já fomos silêncio.
Já fomos medo.
Já fomos resistência.
Já nos deram ordens.
Já nos deram discursos.
Já nos deram promessas.
E nós seguimos aqui.
Não porque tudo deu certo.
Mas porque alguma coisa
dentro da gente
se recusou a morrer.
Ponte
E eu não quero um país perfeito.
Quero um país consciente.
Que olhe para o próprio passado
sem precisar apagar ninguém.
Que reconheça suas feridas
sem transformar a dor
em uma nova violência.
Quero poder discordar
sem deixar de amar.
Quero poder protestar
sem deixar d