[Verso 1]
Quando eu era mais novo, eu falava com o céu,
Como se o mundo inteiro algum dia fosse meu.
Tinha planos rabiscados, mil caminhos pra seguir,
E uma certeza inocente:
“Eu ainda vou conseguir.”
Eu queria construir,
Eu queria conhecer,
Queria deixar meu nome
Em algum lugar antes de morrer.
Não me faltavam sonhos,
Nem vontade de chegar,
Mas descobri uma palavra
Que me ensinou a esperar:
“Amanhã...”
[Pré-Refrão]
Amanhã eu começo.
Amanhã vou estudar.
Amanhã mudo minha vida.
Amanhã vou trabalhar
Naquilo que eu realmente quero,
Na pessoa que eu quero ser...
Mas todo amanhã que chegava
Virava outro “vamos ver”.
[Refrão]
E eu tô cansado...
Mas nem sei do que cansei.
Se eu quase nunca fui à guerra,
Por que parece que eu lutei?
Tô cansado
De prometer e não fazer,
De olhar todos os meus sonhos
E dizer: “depois eu vou viver”.
Quantas vezes eu dormi
Pra não ter que começar?
Quantas versões de mim morreram
Esperando eu levantar?
[Verso 2]
O caderno ainda está aqui,
Naquela página marcada.
A ideia que mudaria tudo
Continua inacabada.
Os livros que eu comprava
Pra pessoa que eu seria
Hoje juntam tanta poeira
Quanto a minha covardia.
Eu assisti outras pessoas
Conquistando o que eu queria,
E dizia: “um dia eu chego”,
Como se o tempo me devia.
Segunda-feira.
Mês que vem.
Ano que vem.
Quando eu estiver melhor.
Sempre procurando o momento perfeito...
Pra não enfrentar o meu pior.
[Ponte]
Então eu encontrei
A criança que eu fui.
Ela não gritou comigo.
Não me chamou de fracassado.
Só perguntou:
“Você conseguiu?”
...
Eu não soube responder.
Ela olhou para minhas mãos
E perguntou outra vez:
“Então por que elas ainda estão vazias
Se eu deixei tantos sonhos com você?”
[Refrão]
Eu tô cansado...
Cansado de me abandonar.
De construir castelos na cabeça
E nunca colocar a primeira pedra no lugar.
Eu tô cansado
De assistir minha vida passar,
Enquanto o homem que eu queria ser
Fica esperando eu chegar.
Talvez eu tenha perdido tempo.
Talvez eu tenha me atrasado.
Mas enquanto houver um amanhã,
Meu futuro não está enterrado.
[Quebra — voz baixa]
Então chega.
Não vou recuperar dez anos
Em uma madrugada.
Não vou mudar minha vida inteira
Em uma semana.
Não preciso vencer o mundo hoje.
Só preciso parar
De entregar meu hoje
Para o amanhã.
[Último Refrão]
Eu ainda estou cansado,
Mas hoje eu vou fazer.
Mesmo pequeno, mesmo lento,
Alguma coisa vai nascer.
Uma página.
Um treino.
Uma moeda pra guardar.
Uma hora estudando
Aquilo que eu vivia dizendo que ia começar.
E se amanhã eu tropeçar,
Eu começo outra vez.
Porque talvez disciplina
Não seja nunca se perder.
Talvez seja olhar pro sonho
Depois de tanto se afastar...
E mesmo morrendo de medo,
Mesmo cansado...
Voltar.
[Final]
Quando eu era criança
Eu queria tocar o céu.
Hoje não prometo que consigo.
Só prometo uma coisa
Àquele garoto que fui:
Dessa vez...
Quando eu disser
“Amanhã eu começo”...
Vou respirar fundo,
Levantar da cadeira
E responder:
“Não.
Hoje.”