Há pessoas que chegam à nossa vida como quem chega a uma estação qualquer: desembarcam, permanecem algum tempo, deixam uma lembrança e seguem viagem.
E há aquelas que parecem ter perdido o mesmo trem que nós.
Talvez seja isso que chamamos de destino.
Não acredito muito em encontros por acaso. Acredito em vidas que se cruzam antes mesmo de entenderem por quê. Em caminhos que se afastam apenas para, anos depois, reconhecerem a mesma curva. Em certas pessoas que, por alguma razão que a razão não explica, parecem conhecidas antes mesmo do primeiro abraço.
Foi assim.
A vida nos colocou frente a frente mais de uma vez, como se insistisse em uma história que nós dois fingíamos não perceber.
E cada reencontro tinha qualquer coisa de primeiro encontro.
O mesmo espanto.
A mesma vontade de ficar mais um pouco.
A mesma sensação estranha de que, perto um do outro, o tempo fazia menos barulho.
Talvez porque entre nós nunca tenha sido necessário representar.
Eu podia chegar com minhas inquietações, minhas pequenas alegrias, minhas histórias sem importância, minhas novidades bobas — e ainda assim queria contar tudo a você. Era curioso. Acontecia alguma coisa durante o dia e, antes mesmo de pensar se aquilo merecia ser contado, eu já pensava em você.
“Preciso contar.”
Era quase sempre assim.
E você ria.
Eu ria também.
Às vezes, nem sabíamos exatamente do que estávamos rindo.
Mas havia uma liberdade naquela risada.
Uma espécie de lugar secreto onde ninguém precisava parecer melhor, mais forte, mais prudente ou mais certo do que realmente era.
Podíamos falar de tudo.
Das coisas profundas e das absolutamente inúteis.
Dos medos que escondíamos dos outros.
Dos sonhos que pareciam grandes demais para serem ditos em voz alta.
Das pequenas coisas do cotidiano.
Das pessoas.
Da vida.
De nós.
E havia uma coisa especialmente bonita: nenhum dos dois parecia precisar se explicar o tempo inteiro.
Talvez porque algumas conexões não peçam explicação.
Peçam presença.
Mas a nossa história nunca encontrou um caminho simples.
Havia portas.
Distâncias.
Circunstâncias.
Silêncios que não eram falta de sentimento, mas excesso de realidade.
Havia aquilo que podia ser dito e aquilo que precisava permanecer guardado.
Havia o mundo — sempre tão disposto a colocar nomes nas coisas, estabelecer limites, apontar o que deveria ou não acontecer.
E havia nós dois.
Talvez por isso tenha sido um amor proibido antes mesmo de ser vivido.
Não necessariamente porque alguém tivesse colocado uma placa dizendo “não”.
Mas porque a vida, às vezes, constrói seus próprios muros.
E, ainda assim, existem desejos que não obedecem à arquitetura da vida.
A vontade de estar perto continuava existindo.
Mesmo quando estávamos longe.
Era uma presença paradoxal: você não estava ali, mas estava.
Na lembrança de uma conversa.
Em uma música.
Em uma notícia que eu queria compartilhar.
Em alguma coisa engraçada que acontecia durante o dia.
Naquela vontade quase involuntária de perguntar:
Lembra daquela história?
Pensei em vc