Somos filhos da terra e do tempo
Raízes perdidas no vento
Envoltos em mitos, histórias antigas
Contadas sob o céu estrelado
Onde a memória dos ancestrais mora.
Não sabemos de onde viemos
Mas nossas canções falam de um passado
Em que éramos guardiões das florestas
Vivendo em harmonia com os espíritos
Das árvores e dos animais.
Caçávamos com arcos e flechas sagradas
Seguindo rastros que a terra nos ensinou
Cada caçada, uma cerimônia
Diálogo profundo com a natureza
Cada dança, um agradecimento aos deuses.
Os tambores ecoavam nas lareiras
E nossos corpos se moviam
Como sombras da floresta
Imitando a graça dos antílopes
E a força dos elefantes.
A música carregava memórias antigas
Histórias tecidas em cantos
Que as crianças aprendiam antes de caminhar
Mas tudo mudou com os homens distantes
Com suas leis que não entendemos.
Expulsaram-nos das matas sagradas
Dizendo que a terra já não era nossa
As árvores viraram parques
E nossos altares, pó ao vento.
Hoje, vivemos à margem do mundo
Esquecidos pelos livros da história
Nossos jovens já não sabem construir armadilhas
Nem ler os sinais da floresta
Mas ainda resistimos
Mantemos viva a chama da dança.
Os tambores soam mais baixos
Mas as histórias ainda são contadas
Em festas secretas, sussurros no vento
Somos os Vatwa:
Sem origem certa, sem terra
Mas com uma voz que não se cala.
A floresta pode ter sido tomada
Mas ela vive em nossos sonhos
E em cada passo que dançamos.
(Shiponga, 2024)