(Verso 1)
A estrada engoliu meu nome
Num buraco de asfalto e calor
Meu pai nunca passou dos 40
Mas eu herdei o mesmo odor
De gasolina, suor e derrota
Que fica na pele de quem não vai
Eu tenho o cheiro de quem desistiu
Antes mesmo de tentar
(Pré-refrão)
Minhas unhas estão roídas
Meus dentes estão podres de sonho
Eu guardo moedas no bolso
Pra comprar um fim que não tenha dono
(Refrão)
Eu sou carne e poeira
Pedaço de estrada sem fim
Sou a filha que ninguém espera
O resto de um homem ruim
Meu corpo é uma casa vazia
Onde o vento assobia e chora
E o amor que me deram foi pouco
Mas doeu como uma tarde inteira
(Verso 2)
Ele dizia que eu era bonita
Com a voz rouca de uísque barato
Mas bonito é o que se quebra
E ele gostava de ver o estrago
Minha costela ainda dói quando chove
Meu ombro lembra a mão dele
Eu aprendi a ser leve
Pra caber dentro do meu próprio medo
(Pré-refrão)
Eu queria ser como as moças
Que riem no balcão do bar
Mas eu só sei rir de nervoso
E dançar como quem vai se afogar
(Refrão)
Eu sou carne e poeira
Pedaço de estrada sem fim
Sou a filha que ninguém espera
O resto de um homem ruim
Meu corpo é uma casa vazia
Onde o vento assobia e chora
E o amor que me deram foi pouco
Mas doeu como uma tarde inteira
(Ponte)
Às vezes eu paro no acostamento
E finjo que vou continuar
Mas o carro não liga, o céu pesa
E eu já não sei mais onde pisar
Minha mãe me liga no domingo
Pergunta se eu tô bem
Eu minto que tô na cidade
Mas tô no mesmo lugar de ontem
(Refrão final - mais arrastado, quase gemido)
Carne e poeira…
Estrada sem fim…
Filha que ninguém espera…
Resto de um homem ruim…
(Saída - sussurrado, com silêncios)
Se eu sumir…
Não procura…
Não tem mapa…
Não tem cura…
Só terra…
E o que sobrou de mim…