[Verso 1]
Uma criação,
uma visão,
um punhado de perguntas
ensaiando um coração.
O barro não existe,
a forma se perdeu.
Procurei quem me inventou:
ninguém apareceu.
O tempo foi passando,
nem pediu pra entrar.
Quando dei por sua falta,
já não tinha o que contar.
[Pré-refrão]
Quem sou? Aonde vou?
Meu reflexo perguntou.
Eu vim buscar resposta,
ele me entrevistou.
[Refrão]
Ei, vazio, abre espaço!
Também quero respirar.
Se a história está em branco,
deixa que eu vou rabiscar.
Ei, vazio, não se ache!
Baixa a voz pra me escutar:
se o mundo acaba em silêncio,
minha guitarra vai gritar!
[Verso 2]
História sem nexo,
personagem sem papel.
Meu autor sumiu no mundo,
me deixou olhando o céu.
Minha sombra foi crescendo,
quis tomar o meu lugar.
Eu falei: “Fica à vontade,
quero ver você cantar!”
A escuridão chegou,
se espalhou pelo salão.
Eu aumentei o volume:
ela bateu no portão.
[Pré-refrão]
Quem sou? Aonde vou?
Quem sabia se mandou.
Fui cobrar algum sentido,
o sentido me enrolou.
[Refrão]
Ei, vazio, abre espaço!
Também quero respirar.
Se a história está em branco,
deixa que eu vou rabiscar.
Ei, vazio, não se ache!
Baixa a voz pra me escutar:
se o mundo acaba em silêncio,
minha guitarra vai gritar!
[Ponte — meio-tempo]
Não tenho resposta,
nem revelação.
Só um bolso furado
e um trovão no pulmão.
Se fui feito de nada,
quem explica, então?
O nada bateu na porta
cobrando participação!
[Solo de guitarra]
[Verso 3 — crescente]
Uma criação,
uma ilusão.
Tanta estrela lá em cima,
nenhuma indicação.
A forma se perdeu,
mas alguma coisa ficou:
essa voz desafinada
que o silêncio não calou.
[Refrão final]
Ei, vazio, abre espaço!
Também quero respirar.
Se a história está em branco,
deixa que eu vou rabiscar.
Ei, vazio, não se ache!
Baixa a voz pra me escutar:
se o mundo acaba em silêncio,
minha guitarra vai gritar!
[Final — falado, banda em pausa]
Ponto final?
Eu nem terminei…
[Banda retorna — cantado]
O vazio pediu silêncio.
Foi aí que eu aumentei!