Nas eras antigas, antes de qualquer memória,
do céu desceram os que a história guarda:
dois irmãos, filhos de Anu, o Senhor do Céu,
Anunnaki de luz, poder e destino imenso
Enlil, o Senhor do Vento, do comando e do ar,
coração de tempestade, firme no seu lugar.
Viu a terra crescer, viu o homem se multiplicar,
e temeu que o caos viesse o mundo abalar.
"Há ordem que se deve guardar," dizia ele com rigor,
"Cada um no seu posto, cada coisa no seu lugar."
Quando a humanidade cresceu além do esperado,
o dilúvio ele ordenou, as águas libertou, revoltado.
Pois para ele, o homem era pó, servidão e obediência,
e o poder pertencia aos céus, sem interferência.
Mas Enki, Senhor das Águas Doces, da sabedoria e da criação,
olhou para a terra com outro coração.
Viu no homem mais que servo, mais que pó e suor,
viu brilho nos olhos, desejo, amor e valor.
Foi ele que, em segredo, sussurrou ao escolhido:
"Constrói uma arca, pois o dilúvio está chegando!"
Quebrou a ordem do irmão, desafiou o decreto,
e salvou a semente humana de um fim tão preto.
Ensinou os homens a arte, o metal, a plantação,
e amou essa terra com profunda devoção.