Quando eu nasci, já sabia,
sem ninguém precisar contar:
aquela nobre senhora
um dia viria me buscar.
Não sei a hora, nem o caminho,
nem de que lado ela vem.
Só sei que nunca se atrasa
e não se esquece de ninguém.
Não tenho medo da passagem,
nem vou fingir que não sei:
quem chega já traz na bagagem
a despedida que não vê.
Duas moedas sobre os olhos,
uma barca pra atravessar.
Não sei se existe outro lado,
nem faço questão de explicar.
Duas moedas sobre os olhos
quando a senhora me chamar.
Se viver já é passagem,
que tenha valido passar.
A gente nasce fazendo planos,
cresce querendo durar,
coleciona nomes e enganos
como se pudesse ficar.
Compra relógios contra o tempo,
fecha os olhos pra não ver:
cada minuto que se ganha
é outro minuto a perder.
A gente corre contra as horas
como se pudesse ganhar.
Mas o tempo não perde a corrida,
só nos ensina a passar.
Não quero a eternidade.
Eternidade deve cansar.
Quero apenas que esta viagem
tenha valido atravessar.
Duas moedas sobre os olhos,
uma barca pra atravessar.
Não sei se existe outro lado,
nem faço questão de explicar.
Duas moedas sobre os olhos
quando a senhora me chamar.
Se viver já é passagem,
que tenha valido passar.
Nascer.
Crescer.
Cair.
Levantar.
Amar o que não fica.
Guardar o que vai passar.
Perder.
Ganhar.
Partir.
Chegar.
E passar a vida inteira
sem saber onde desembarcar.
Talvez o fim não seja o contrário
de tudo aquilo que começou.
Talvez seja apenas o silêncio
depois que a música acabou.
Quando aquela nobre senhora
finalmente vier me encontrar,
não precisa bater duas vezes.
Eu já sei quem veio buscar.
Ponham duas moedas nos meus olhos.
Deixem a velha barca passar.
Não tenho medo da partida.
Nunca tive medo do mar.
Fiz amigos.
Cometi enganos.
Amei sem saber calcular.
Perdi algumas batalhas.
Ganhei histórias pra contar.
E se a senhora perguntar
se valeu a pena ficar,
não vou pedir mais um minuto,
nem outro relógio pra atrasar.
Eu vivi intensamente.
Pode levar as minhas moedas.
Agora, senhora...
pode remar.