Saí de casa antes do dia
Deixei meu sono no portão
Fui negociar com a vida
Um pouco de paz pro teu coração
Trouxe o pão, paguei as contas
Fiz do peito um cobertor
Mas na matemática dos teus sonhos
Sempre faltava o meu amor
Você dizia que eu não via
O que havia pra enxergar
Que eu estava sempre ausente
Mesmo estando no lugar
Eu enfrentava o mundo inteiro
Pra que ele te deixasse em paz
Voltava com as mãos tão cheias
E te devia sempre mais
Também quis chegar mais cedo
Ter um colo, um cafuné
Mas quem sustenta a casa inteira
Onde encosta quando quer?
Eu te dava o mundo inteiro
Você perguntava: e o resto?
Eu procurava nos meus bolsos
Algum pedaço do universo
Te dei segunda, terça e quarta
Quinta, sexta e feriado
Mas no calendário do teu peito
Eu vivia atrasado
Se eu chegava, estava ausente
Se eu partia, era pior
Se eu falava, não ouvia
Se calava, ficava só
Eu também tinha meus medos
Minha vontade de parar
Mas até minhas tristezas
Tinham hora pra acabar
Não sou santo, nem perfeito
Tenho faltas, sei que errei
Mas não conte só as minhas
Esquecendo o que entreguei
Eu não queria ser teu mundo
Nem teu sol particular
Só queria que entendesses
Que eu também preciso de um lugar
Eu te dava o mundo inteiro
Você perguntava: e o resto?
Eu procurava nos meus bolsos
Algum pedaço do universo
E se o amor não tem medida
Nem recibo pra guardar
Por que eu tinha que provar
O que não parava de te dar?
Ainda te amo, veja só
Que coisa mais desigual
Passei a vida sendo forte
Pra não te faltar o essencial
E hoje, olhando o que nos resta
Sem querer te condenar
Descobri que o mais pesado
Não foi o mundo carregar
Foi chegar em casa inteiro
Depois de tanto caminhar
E descobrir que em teus braços
Não havia onde encostar
Eu não me cansei de te amar
Cansei de não caber
No amor que te entreguei
E esqueci de receber
Você dizia que eu era nada...
E eu, de tanto ouvir,
Deixei de discordar.