Ele,
criado com Aurélio,
eu, criado na vida,
ele aprendeu na seda,
eu, na lama da avenida.
Ele,
com os olhos claros,
eu, com os olhos tristes,
cada um vê o mundo
do lugar onde existe.
E eu já nem sei
se posso reclamar,
se a vida que me coube
ainda pode se queixar.
Ele tem teto branco,
eu tenho o céu estrelado,
ele nasceu filho dela,
eu nasci do outro lado.
Ele pode quase tudo,
eu só posso pedir,
ele escolhe o caminho,
eu aprendi a seguir.
E não quero,
não posso,
reclamar mais de nada.
Não quero,
não posso,
reclamar da caminhada.
Ele,
quando quer, tem uma pena,
eu imploro por perdão,
ele dobra os seus joelhos,
eu abro o coração.
Ele sabe de onde veio,
sabe até para onde vai,
eu procuro alguma coisa
que me diga de onde sai.
Busco
porque é dele.
Peço
porque não é meu.
Ele tem nome na porta.
Eu tenho
a rua e o céu.
E talvez nessa distância,
entre o muito e o quase nada,
cada estrela seja um teto,
cada passo, uma morada.
Ele tem teto branco,
eu tenho o céu estrelado,
ele nasceu filho dela,
eu nasci do outro lado.
Ele pode quase tudo,
eu só posso pedir,
ele escolhe o caminho,
eu aprendi a seguir.
E não quero,
não posso,
reclamar mais de nada.
Não quero,
não posso,
reclamar da caminhada.
Ele,
tudo pode.