Não foi o vinho. Foi o silêncio falando baixo dentro de mim.
Os fantasmas já me esperavam. Dentro ficaram. Nunca os perdi.
O corpo procurava casa, a alma respondia calma. Veio a manhã sem ter pressa, trazendo a vida pela palma.
Marco novamente. Rosa também. Sorriso inteiro. A vida. Amém.
E eu continuo, continuo escrevendo, porque às vezes a lucidez só encontra a própria voz com uma cerveja na mão e alguma coisa se perdendo.
O copo se perdeu nesse vasto mundo que eu não conheço ou ao qual não pertenço.
Continuo na ativa, entre Rita e latas jogadas pelo chão.
E no vão, permaneço.
Não sei se saiu. Não sei se ficou. Não sei se fui ou se algo restou.
Dentro do copo, mesmo vazio, algo enche, engole e cospe aquilo que excede.
Em pedacinhos, vou ficando em pedacinhos. Um pouco no copo, um pouco no chão, um pouco perdido em cada direção.
Em pedacinhos, sem saber onde estou. Junto meus pedaços e continuo onde a vida me deixou.
Sinto fantasmas andando por Feira.
Entre trilhas me perco. Rotas tortas. Vida inteira.
Procuro aquilo que me deixa atento, sem tento, sem mapa, sem direção.
Vejo pernas. Vejo abraços.
Sou o palhaço no meio do circo, olhando a luz que esconde a plateia e ilumina a solidão.
As mãos se juntam num mesmo coro.
Uma voz ecoa.
Amém.
Quando termina o último ato, da festa inteira resta o prato.
O bolo que eu não comi.
A festa que já passou.
As letras que escrevi.
O tempo que apagou.
Em pedacinhos, vou ficando em pedacinhos. Um pouco na festa, um pouco no chão, um pouco nas letras, um pouco na mão.
E se o mundo me desmonta, eu me escrevo outra vez, juntando os pedaços que a vida desfez.
Não é condição.
É constatação.
Falou Zaratustra:
Vai.
Segue em frente.
Porque a vida vai mesmo sem explicar para onde.
A senhora espera no fim ou no começo.
E a pedra?
A pedra estará lá.
Parada.
Esperando outro chute para, mais à frente, me encontrar novamente.
E dizer:
Acorda.
Levanta.
Anda.
Mesmo que não saiba se é sonho ou sonhador.
Mesmo sem respostas para aquilo que ainda espera.
O copo esvazia.
A festa termina.
O fantasma permanece.
A manhã ilumina.
E eu?
Eu continuo.
Vivendo. Escrevendo. Caindo. Juntando.
Porque inteiro nunca prometi ficar.
Mas enquanto houver pedaços, ainda existe o que juntar.
E assim termino como comecei:
sem resposta, sem inteiro, sem saber direito quem partiu e quem ficou.
Como Jack.
Em pedacinhos.