Acordei dentro de um sonho
Que jurava estar acordado.
Minha cabeça foi pra rua,
Meu corpo ficou sentado.
Perguntei meu nome ao espelho,
Ele começou a rir.
Disse que eu tinha saído
Sem dizer quando ia vir.
Eu saí de mim,
Nem sei pra onde fui.
Deixei o juízo na mesa,
Quando voltei, já sumiu.
Eu saí de mim,
Sem passagem pra voltar.
Se alguém encontrar meu cérebro,
Manda ele me procurar.
Tinha um sol dentro do quarto,
Uma lua no colchão,
Um pintinho dando conselho,
Um incêndio no coração.
A madrugada era verde,
O teto começou a girar.
Perguntei se aquilo era amor,
A parede mandou esperar.
Minha sombra pediu licença,
Cansou de me acompanhar.
Calçou meu sapato esquerdo
E saiu no meu lugar.
Eu saí de mim,
Ou foi o mundo que saiu?
Meu passado pegou carona,
Meu futuro se distraiu.
Encontrei Deus numa esquina,
Perguntei qual era o sinal.
Ele apontou pro universo.
Achei aquilo normal.
Bebi silêncio num copo,
Mastiguei uma canção.
Guardei terça-feira no bolso,
Joguei domingo no chão.
O relógio perdeu as horas,
O calendário se perdeu.
Ontem virou amanhã
Antes que hoje acontecesse.
Encontrei meu próprio nome
Dormindo atrás do sofá.
Perguntei:
Você sou eu?
Ele disse:
Sei lá.
Pedi um blues pro garçom,
Ele trouxe solidão.
Pedi a conta da vida.
Veio sem explicação.
Dei gorjeta pro destino
Só pra ele me esquecer.
O desgraçado deu risada:
Hoje eu vim buscar você.
Eu disse:
Espere um pouco,
Que eu ainda não cheguei.
Se você procura por mim,
Também não sei onde deixei.
Minha memória alugou
Um quarto em outro lugar.
Levou tudo que eu lembrava,
Mas esqueceu de me levar.
Eu saí de mim,
Ou foi o mundo que saiu?
Talvez eu nunca estivesse
Onde alguém jurou que me viu.
Encontrei outro de mim
Sentado no mesmo bar.
Perguntei quem era aquilo.
Disse:
Você vai lembrar.
Quando?
Antes de ontem.
Onde?
Depois daqui.
Quem sou eu?
Depende.
Depende de quê?
De quem estiver aí.
Foi quando tudo fez sentido.
Por isso não entendi.
Minha cabeça voltou cedo,
Meu juízo chegou depois.
Meu corpo abriu a porta:
Agora somos nós três.
Olhei depressa pro espelho.
O espelho também sumiu.
Deixou somente um bilhete:
“Fui procurar quem me viu.”
Eu saí de mim.
Deixei a porta encostada.
Se eu voltar antes de mim,
não me deixem entrar.
Vai que aquele que retorna
É justamente o que ficou.
E aquele que ficou
Já não sabe
quem voltou.