Era uma noite, fazia muito frio,
e eu andava só.
Olhava para o céu, olhava pro chão,
e nada tinha, não.
Nem uma coberta, nem uma cachaça
pra me esquentar.
Não sei se vou suportar,
não sei se vou suportar.
Era eu e o nada, abandonado,
sentado na calçada.
Todo mundo via e virava a cara,
como se eu não fosse nada.
Passavam depressa, seguiam a vida,
ninguém quis me enxergar.
Eu estava ali, no meio de todos,
sem ter onde chegar.
Eu tenho pele, eu tenho cara,
não sou um nada.
Tenho uma história, tenho um nome,
mesmo na calçada.
Sou da sociedade como você,
também tenho direito de sonhar.
Não quero pena, não quero esmola,
só uma chance pra tentar.
Eu também tive casa e endereço,
também tive um lugar.
Também conheci abraço e promessa,
também soube amar.
A vida não pergunta antes de levar,
nem avisa quando vem.
Hoje sou eu dormindo na rua,
amanhã pode ser alguém.
Eu tenho pele, eu tenho cara,
não sou um nada.
Tenho uma história, tenho um nome,
mesmo na calçada.
Sou da sociedade como você,
também tenho direito de sonhar.
Não quero pena, não quero esmola,
só uma chance pra tentar.
Ponte
Me dê a mesma chance
de poder conquistar.
Sem distinção de cor, de sexo,
sem ter que implorar.
Não quero ser mais que você,
nem quero tomar seu lugar.
Só quero que, quando olhar pra mim,
você consiga me enxergar.
Eu tenho pele, eu tenho cara,
não sou um nada.
Tenho frio, tenho medo,
tenho alma.
Sou da sociedade como você,
mesmo sem teto pra voltar.
Não vire o rosto quando me vir,
não finja que eu não estou lá.
Eu tenho pele.
Eu tenho cara.
Eu tenho nome.
Não sou um nada.
Não quero pena.
Só quero a mesma chance
de poder tentar.
Final
Era uma noite, fazia muito frio...
E eu andava só.
Não me deixe só.