Brazilian pop rock, female vocals, mid-high range, emotional and powerful delivery, clean electric guitars with driving power chords, pulsing bassline, tight rhythmic drums, atmospheric synths, 115 BPM, polished radio production, melancholic yet triumphant mood.
Quando eu nasci, meu pai proclamou:
Vai ser menino!
Menino não chora,
Menino não reclama,
Menino não grita,
Engula tudo, mesmo com um nó na garganta.
Menino é forte!
Menino é norte!
Menino não tem medo da morte!
Cresci com essa cartilha:
O, Bê, Dê Cê.
E fui ficando sem entender o que era ser menino ou menina.
Tentando encontrar um jeito de ser
o que ele queria,
Vinha choro, eu engolia.
Vinha raiva, eu recolhia.
Aos poucos, a lágrima secou.
O corpo inflamou.
O coração sangrou.
E a cada primavera que ia passando
Eu ia me transformando
mais em menino.
Enquanto isso, na sala,
minha irmã vestia o rendado,
a delicadeza exata, o tom desejado.
Ela era a flor;
eu, a ferramenta.
Ela, o espelho onde o orgulho deles se olhava;
eu, a sobra que ninguém sustenta.
Comparavam meus passos desajeitados aos dela,
meus joelhos ralados à sua saia amarela.
Para a família, eu era o erro do passado,
a filha fora do tom,
o rascunho de um filho que não veio.
Aprendi a me calar para caber no meio.
Mas a cartilha cobrou seu preço.
A força inventada virou solidão.
O nó na garganta virou prisão.
Hoje, sentada no sofá cor de esperança, solto a trava.
Olho para a menina que fui,
tão valente, tão só,
carregando um pai no peito
e o peso do mundo na mão.
Não preciso mais engolir o choro.
Não sou o filho dele,
não sou o espelho dela.
Sou a força da tempestade —
enfim, inteira.