Um marco e uma rosa Um sorriso e uma flor O dia nasce amarelo Entre o ruído e o amor
O abismo ainda sorri Lábio, carne, arrepio Uma trilha pelo corpo Desaguando no vazio
A linha da virilha O segredo sob a pele Cheiro, gosto, movimento Todo desejo também fere
Fantasmas, fantasmas Moram dentro do prazer Bebem tudo do meu corpo Sem jamais permanecer
Fantasmas, fantasmas Entre a vida e o que sou Enchem o copo de desejo E esquecem quem o esvaziou
[Verso 2]
Pulsão de vida e morte Engolindo o que restou Volto à matéria antiga Ao corpo antes do corpo
O copo sobre a mesa O cigarro no cinzeiro O princípio, o fim, o meio E eu perdido por inteiro
[Ponte 1 — quase falada]
Não sei se fico Não sei se vou Não sei se saio Ou se já não estou
Volto para o marco Onde tudo começou Descanso o corpo cansado Do que o corpo desejou
Enxugo o suor da pele Deixo o peito respirar Ainda existo aqui dentro Ainda posso me encontrar
Sou corpo! Sou alma! Sou desejo! Sou amor!
Não sou somente um copo Que alguém encheu e deixou Não sou somente o desejo Que depois se abandonou
Fantasmas, fantasmas Moram dentro do prazer Bebem tudo do meu corpo Sem jamais permanecer
Fantasmas, fantasmas Entre a vida e o que sou Enchem o copo de desejo E esquecem quem o esvaziou
Um marco e uma rosa Um sorriso e uma flor E aquilo que era fantasma Por um instante respirou
Acordei sem ter certeza Se era sonho ou sonhador Se era o corpo procurando Ou o desejo por amor
Porque a morte começa Muito antes do silêncio Há corpos que seguem respirando Depois de deixarem de existir
Fantasmas, fantasmas Vêm e vão sem avisar Mas enquanto houver meu corpo Ainda tenho onde voltar
Um marco Uma rosa Um sorriso Uma flor
E no fundo dos fantasmas Ainda resta Algum amor.