O tambor cruzou o mar, o tempo resistiu
Uma história antes da história ecoou no meu Brasil
Congo antigo em realeza, cortejo de pele escura
Onde a dor do exílio se transformou em beleza pura
Vem na ginga do nagô, no traço de Pernambuco
Porta-estandarte anuncia o novo reino pro mundo!
A capa não toca o chão, a coroa é soberana
Protegida pelo sol na realeza africana
Vem, Dama do Paço, conduz o invisível
Que o mistério do terreiro faz o povo invencível!
Gira o mundo no barro do chão, a macumba se veste de rei!
A calunga na palma da mão é mistério que eu respeitei!
Dona Júlia é segredo de fé, guardiã de quem já se foi...
Onde mora a força de Santa, o machado de Xangô ecoou!
Gira o mundo no barro do chão, a macumba se veste de rei!
A calunga na palma da mão é mistério que eu respeitei!
Dona Júlia é segredo de fé, guardiã de quem já se foi...
Onde mora a força de Santa, o machado de Xangô ecoou!
Mas o mestre encantou... e a princesa adormeceu
O museu virou silêncio, o sagrado se perdeu
Trinta anos de saudade, no vazio da ausência
Até que Olinda viu brilhar sua herança e resgatar sua essência!
Xambá jogou o búzio na fresta do tempo, Oyá respondeu:
"Deolve a boneca pro povo do Pina, que o trono é seu!"
Banho de folha, linha e morim... acaçá pra afastar a morte
Sangue no Igbá de Oxalá fez a madeira bater mais forte!
No quarto de Igbalé, o Ichãn tocou o chão
Dona Júlia ganhou vida na mais pura encantação!
Num domingo de Momo, o Recife acordou
Segunda-feira no Terço, a luz se apagou!
À meia-noite... o relógio corre ao avesso, o céu clareou!
Corpos giram no sentido da ancestralidade
É Ramos cantando a memória que vence a eternidade!
Lá vem a Imperatriz... o tambor vai trovejar!
Dona Júlia tá na rua... deixa a Rainha dançar!
Bate o baque, Imperatriz! Grita o povo de Ramos!
Na batida do tambor, a coroa nós saudamos!
Dona Júlia voltou pra saudar meu pavilhão...
A memória do Rei é a voz da nossa nação!
Bate o baque, Imperatriz! Grita o povo de Ramos!
Na batida do tambor, a coroa nós saudamos!
Dona Júlia voltou pra saudar meu pavilhão...
A memória do Rei é a voz da nossa nação!