Fui criado pra servir, não pra ser sentido
Se eu ajudo, sou lembrado, senão sou esquecido
Minha dor nunca coube no que eles queriam
Só me queriam bem quando minhas mãos construíam
Virei ferramenta, coração de aço
Usado no aperto, descartado no cansaço
E eu achando que era laço, era só contrato
Valor condicionado, sentimento barato
Olhares mudam rápido quando o jogo vira
Enquanto eu produzia, era “irmão”, era “família”
Mas bastou um tropeço, um momento ruim
Pra ver quem tava pelo que eu sou… ou pelo que eu dei pra ti
Aqui é lei da utilidade, não tem emoção
Se não rende resultado, já cortam conexão
Cê não é importante, cê é função
Perde o uso… vira peso… vira exclusão
Aqui ninguém te ama, só te usa bem
Enquanto cê resolve, cê convém
Mas quando cê precisa, cadê quem?
Some todo mundo… fica só você também
Quantas vezes me calei pra manter respeito?
Engoli o orgulho pra não virar “defeito”
Mas defeito é esse mundo que mede valor
Pelo tanto que cê serve e não pelo seu amor
É sistema frio, mente programada
Gente vira número, alma descartada
Se não agrega lucro, cê vira atraso
E sentimento aqui é visto como fracasso
Aprendi na dor o que ninguém fala
Que utilidade virou moeda mais cara
E quem vive de verdade, sem fingir papel
Acaba sozinho nesse mundo cruel
Mas eu não vou mais me moldar pra caber
Num padrão que só sabe me usar e esquecer
Se for pra ficar só, eu fico em paz
Melhor do que ser útil… e nunca ser de verdade jamais
Aqui é lei da utilidade, eu já entendi
Se não sirvo pra nada, ninguém olha pra mim
Mas agora eu sei… meu valor vai além
Não sou só o que faço… sou mais que isso também
Se for pra me querer…
Que seja por quem eu sou.
Não pelo que eu posso dar.