Há muito tempo, num tempo sem memória,
vivia uma mulher — ninguém sabia ao certo
de onde vinha, nem quem eram os seus pais.
Rica de bens, mas pobre de alma e de paz,
sete demônios nela faziam morada,
e a sua vida era noite, sem fim, sem nada.
Era vista como louca, doente, perdida,
abandonada por todos, sem mão amiga,
tristeza que doía, dor que não tinha cura,
sentia-se só, esquecida, sem ternura.
Pensava que o mundo não tinha lugar para si,
que a sua sorte era só sofrer e chorar ali.
Até que um dia, um homem surgiu no caminho,
e chamou seu nome — como quem sabe o destino.
Ela o encarou, assustada, cheia de espanto:
“Como sabes meu nome? Quem és tu, ?
Ele se aproximou, falou da sua história,
da sua terra, da vida, da sua memória.
Ela chorou, e disse com voz que tremula
“Só meus pais me chamavam assim, na alegria…
Quem és tu, que sabes tudo o que eu já vivi?”
Ele respondeu, com voz de eterno amor:
“Eu sou quem sou. Assim diz o Senhor,
que te criou,oh Jacó,que te formou, oh Israel
não temas, porque eu te remi, chamei te pelo teu nome ,tu és meu
Tu és minha — desde o ventre de tua mãe
Maria caiu de joelhos, em profundo pranto
e naquele instante, mudou todo o seu mundo.
Deixou de ser só, deixou de ter dor,
e passou a adorá-lo, com todo o seu amor.
Quem a via antes, não mais a reconhecia:
o brilho nos olhos, a paz que lhe nascia.
Com os seus bens, ajudava o Mestre com tudo que tinha
e dizia baixinho, sempre a lhe escutar:
“Mestre, eu te seguirei, jamais te deixarei,
por onde fores, eu também andarei.”
Seguiu-o pela Galileia, por cada cidade,
até Jerusalém, com fé e liberdade.
E quando chegou a hora da maior dor,
ela estava lá — fiel, com todo o seu amor.
Viu-o na cruz, ferido, sofrendo, a morrer,
e o coração dela parecia se romper.
Ele lhe disse: “Maria, vai para o teu lar…”
E ela respondeu, sem dele se afastar:
“Não te deixarei, enquanto eu te puder ver,
enquanto houver vida, ao teu lado vou estar
Chorava alto: “Mestre, que dor tão imensa!”
Mas não o abandonou, nem na dor mais intensa.
Ao amanhecer do primeiro dia da semana,
foi ao sepulcro, com alma ainda doendo
Mas viu a pedra removida, o túmulo vazio,
e o desespero tomou-lhe o peito e o brilho.
“Quem levou o meu Mestre? Onde o esconderam?
O corpo do meu Senhor, por que o tiraram?”
E de repente, uma voz, suave e conhecida:
— Maria! — e todo o seu ser ganhou vida.
Prostrou-se de joelhos, chorou de alegria:
“Mestre! Estás aqui! És tu, minha vida!”
Ele disse: “Vai, diz aos meus irmãos,
que eu ressurgi, venci a morte e os grilhões.”
Ela correu, depressa, a todos anunciar:
“O Mestre viveu! Ressuscitou! É o verbo e o amar!”
E assim ficou seu nome, na história gravado:
Maria Madalena — quem mais o amou,
quem mais o seguiu, quem mais o honrou,
e cujo amor ao Mestre, ninguém jamais igualou.