No lombo de um sonho antigo, cortando a imensidão
Chapéu de aba larga e coragem no coração
Pião criado na roça, de berrante e de luar
Foi rasgando o tempo inteiro sem saber onde ia dar
Num clarão rompeu a estrada, sumiu poeira e sertão
Quando abriu os olhos, viu o mundo noutra direção
Cavalo de luz correndo sem ferradura no chão
Boiadeira era de aço, sem mugido e sem peão
Refrão:
Eu vi o futuro, cumpadi, mas sou raiz do interior
Tinha máquina no campo, mas faltava o cheiro da flor
Vi progresso de outro mundo, vi cidade até no céu
Mas o calor de uma viola não trocaram, nem a fé
As porteira era eletrônica, boi marcado por radar
Drone cuidando da boiada sem berrante pra chamar
As estrelas tão cobertas por luz forte de neon
Mas a saudade da fogueira bateu fundo no meu som
Vi menino sem apego, sem saber plantar feijão
Muito luxo, muita pressa, pouco aperto de mão
No relógio do destino eu pedi pra regressar
Porque o futuro é bonito, mas meu chão é meu lugar
Refrão:
Eu vi o futuro, cumpadi, mas sou raiz do interior
Tinha máquina no campo, mas faltava o cheiro da flor
Vi progresso de outro mundo, vi cidade até no céu
Mas o calor de uma viola não trocaram, nem a fé
Voltei pra velha fazenda com a verdade pra contar
Que o amanhã pode ser grande, mas não pode se esquecer
Que sem respeito às raízes, sem amor e tradição
Nem o futuro mais brilhante vence um simples coração
Hoje eu canto essa história pra quem quiser escutar:
O pião foi no futuro… mas escolheu seu velho lar.