Maria Luiza me disse
que eu deveria aprender outra língua.
E eu, que sempre imaginei
o amor com sotaque francês,
passei anos tentando compreender
a beleza de um *je t'aime*.
Aprendi palavras,
decorei pronúncias,
ensaiei declarações
que mal sabia sentir.
Fiz do francês minha poesia,
do romantismo, minha morada,
e de um amor que não conhecia,
a mais bonita das esperas.
Mas Maria Luiza
esqueceu de me dizer
que o amor da minha vida
não viria de Paris.
Não teria sotaque,
não recitaria versos à beira do Sena,
não me esperaria
aos pés da Torre Eiffel.
Falaria brasileiro.
Humildemente brasileiro.
Diria que me ama
entre um café e outro,
reclamaria das minhas manias,
dividiria comigo o pão,
a cama,
os dias.
Não precisaria de palavras bonitas
para fazer do cotidiano
a mais bela declaração.
E eu, tão ocupado
em conjugar o verbo amar
numa língua estrangeira,
não percebi
que o amor estava ali,
falando comigo
todos os dias.
Hoje sei
que *je t'aime* é bonito,
tem música,
tem encanto,
tem poesia.
Mas nada se compara
à simplicidade de um eu te amo
dito por quem escolheu ficar.
Que ironia, Maria Luiza.
Passei a vida
aprendendo francês
para encontrar alguém
que só falava brasileiro.
E quando finalmente compreendi
que o amor não precisava
de tradução,
já havia deixado
sem resposta
a mais bonita declaração.
Hoje sei dizer *je t'aime*
com perfeita pronúncia.
Só não sei
se ainda há alguém
querendo ouvir
meu eu te amo.