Era domingo, dia de eleição,
fui exercer meu direito de cidadão.
Votei consciente, firme e preparado:
não entendo de política,
mas tenho lado.
Direita, esquerda?
Nunca entendi a questão.
Só sei que o filho daquele senhor
é a salvação da nação.
O pai já tinha explicado
com toda convicção:
era só uma gripezinha
e até faltava o ar
na demonstração.
Mas deixa isso pra lá,
vira a carne, meu irmão.
Política com cerveja
dá azia e discussão.
Meu churrasco é de direita,
minha cerveja é liberal.
Se eu tô empregado,
foi mérito pessoal!
Se entra dinheiro, fui eu.
Se falta, é culpa federal.
Se a picanha sobe um real,
é culpa do Planalto Central!
Como pão com ovo
e sou a cocada preta.
Devo o carro, devo o cartão,
mas dou aula sobre a meta.
Sou classe média, companheiro!
COMPANHEIRO, NÃO!
Retiro o companheiro
antes que dê confusão.
Fiquei um tempo desempregado,
xingando a situação.
O desemprego foi baixando,
veio enfim a contratação.
Foi o governo?
NÃO!
Foi Deus, meu currículo,
meu talento e dedicação.
O governo teve a sorte
de estar na administração.
Meu churrasco é de direita,
meu salário é apartidário.
Quando aumenta, mérito meu.
Quando não, culpa do mandatário.
Vale-gás na comunidade?
Compra de opinião!
Mas se tiver algum auxílio
pra aliviar minha prestação...
PERAÍ!
Me passa o endereço.
Depois retomamos
essa discussão.
Até que alguém perguntou:
“E AQUELE JANEIRO?”
Ih...
Uns amigos foram passear
lá no Planalto Central.
Congresso, Supremo, Planalto...
turismo institucional.
Quebraram umas coisinhas,
entraram sem autorização.
Mas o doutor da churrasqueira
deu logo a explicação:
“Foi manifestação!”
Um levou bandeira,
outro levou cartaz.
Outro entrou onde não devia:
“Banheiro, rapaz!”
Meu churrasco é de direita,
minha memória é opcional.
Se o outro lado faz besteira,
é escândalo nacional.
Se a besteira é do meu lado:
“Também não foi bem assim...”
Passa a farofa,
aumenta o som
e encerra esse assunto pra mim!
No fim da tarde
acabou a cerveja.
PRONTO!
Acabou esquerda, direita,
governo e oposição.
Começou a verdadeira
crise da nação:
QUEM VAI COMPRAR MAIS?
O dono bateu no peito:
“Cada um paga a sua!”
Silêncio constitucional.
Direita olhou pra esquerda.
Esquerda olhou pra direita.
Até que alguém propôs
o grande pacto nacional:
RACHA A CONTA, PORRA!
A proposta foi aprovada
sem emenda e sem discussão.
Ninguém mudou de lado.
Ninguém salvou a nação.
Mas a cerveja voltou gelada...
Isso já é governabilidade.