Fui cuspido de um ventre insípido,
corpo mal dormido,
alma mal lavada,
num mundo já perdido.
Fui lançado sem aviso,
sem promessa de calor,
filho de um útero frio,
aprendiz precoce da dor.
Gélido.
Glacial.
Um céu pequeno demais.
Fui homem antes de menino,
antes de saber do que sou capaz.
Estive antes de estar,
comido antes de comer,
arrebatado antes de sentir,
aprendi a sobreviver.
Sou filho daquela,
daquela que ninguém diz.
Filho daquela,
e ainda estou aqui.
Homem, menino, brasileiro,
seja lá o que eu quiser.
Sou filho daquela...
Você sabe quem ela é.
Subi aos céus sem escada,
não esperei nada de Deus.
Se o milagre não chegava,
fazia o milagre ser meu.
Fui Deus antes de Jesus,
fui herege sem temer.
A vida me ensinou cedo:
cair também é viver.
Não tive nada.
Nada mesmo.
Nem promessa pra seguir.
Só essa estranha teimosia
de cair e resistir.
Medo de quê?
Medo de quem?
A vida nunca pediu licença.
Medo de quê?
Medo de quem?
Quem nasce assim
dispensa bênção.
Não sou santo.
Não sou réu.
Não quero trono.
Não quero céu.
Se perguntarem quem eu sou:
Sou quem ficou.
Sou filho daquela,
daquela que ninguém diz.
Filho daquela,
e ainda estou aqui.
Sem berço,
sem escolha,
sem mapa pra seguir.
Fui homem antes de menino.
Aprendi a existir.
Filho daquela...
Daquela mesma.
Não posso contar.
Você já sabe.