Conheci um homem tão calado
Que o silêncio sabia seu nome
Trabalhava de sol a sol
E ainda agradecia a fome
O patrão chamava de família
O salário chamava de favor
E o homem engolia a resposta
Com um sorriso de elevador
Aprendeu desde menino
Que falar podia custar
Um emprego, um abraço, uma casa
Ou alguém pra lhe escutar
Ele engoliu a própria voz!
Pra não perder o seu lugar!
Mas quem passa a vida calado
Vai esquecendo como gritar!
Ele engoliu a própria voz!
Fez do medo sua religião!
Tinha um mundo dentro do peito
E uma cela no coração!
Tinha um filho de sete anos
Que fazia perguntas demais
"Pai, por que o senhor tem medo
De dizer que não aguenta mais?"
Ele olhou para o prato vazio
Pro retrato na parede da sala
E descobriu que o pior castigo
Era ensinar seu filho a se calar
Naquela noite não dormiu
Ouviu um grito dentro de si
Era a criança que ele tinha sido
Perguntando: "Quando vamos sair?"
Ele engoliu a própria voz!
Pra não perder o seu lugar!
Mas quem passa a vida calado
Vai esquecendo como gritar!
Primeiro mandaram ficar quieto
Porque era pequeno.
Depois, porque era empregado.
Depois, porque tinha família.
E quando finalmente pôde falar...
Já não lembrava o som da própria voz.
Na segunda-feira, às sete e meia
O patrão mandou ele se calar
Mas o homem ergueu a cabeça
E começou devagar a falar
Não pediu riqueza ou vingança
Nem prometeu revolução
Disse apenas: "Eu sou gente,
Não sou peça da sua produção!"
Ele encontrou a própria voz!
Mesmo tremendo ao falar!
Descobriu que ter coragem
Não é deixar de se assustar!
Ele encontrou a própria voz!
E não precisou ser herói!
Pois a palavra que liberta
É a mesma que às vezes dói!
O filho perguntou:
"Pai, o senhor não tem mais medo?"
"Tenho, meu filho...
Mas agora ele me escuta!"