O MUNDO CONTINUA TORTO
Andando pela rua
encontrei meu pensamento
sentado numa pedra
esperando o movimento.
A lua vinha torta,
o poste estava aceso,
um fantasma pediu fogo,
eu ofereci meu medo.
Deus passou pela esquina,
os orixás pelo bar,
o universo deu de ombros,
ninguém quis me explicar.
E eu fui.
Com meu pecado no bolso,
meu pacote e o coração,
uma pedra no caminho,
uma cerveja na mão.
O mundo continua torto,
ou torto continuo eu?
Se existe um centro em tudo,
quem foi que o escolheu?
O mundo continua torto,
girando sem avisar.
Se alguém encontrou a saída,
esqueceu de me contar.
Vi meu passado na calçada
vendendo pipoca e ilusão,
uma menina de cabelo cacheado
atravessou minha visão.
Vi a laje, vi a escola,
um beijo que não terminou,
vi pedaços da infância
que o tempo não carregou.
Meu pai conversava com o tempo,
meu filho conversava comigo.
Entre quem vai e quem fica,
descobri que ainda prossigo.
Então a rua ficou líquida.
Os prédios começaram a respirar.
As janelas criaram olhos.
As pedras começaram a cantar.
Uma panela cruzou o céu
cheia de estrelas e colágeno.
Rita passou numa nuvem
assobiando o fim do século.
Levava pedras nos bolsos
e um domingo na contramão.
Perguntei onde ia.
Ela apontou para o chão.
O mundo continua torto,
ou torto ficou o céu?
Tem um rei dentro da barriga
dizendo que tudo é seu.
O mundo continua torto,
ninguém consegue endireitar.
Quem aponta pro infinito
esquece onde vai pisar.
Vieram os fantasmas,
os amores,
as despedidas,
os abraços atrasados
e tudo aquilo
que juramos esquecer.
Não esqueci.
Coloquei cada coisa
num canto da cabeça.
Algumas fazem barulho.
Outras bebem em silêncio.
Quando a madrugada chega,
elas mudam os móveis de lugar.
Por isso acordo diferente.
Ninguém atravessa a própria vida
sem deixar pedaços pelo chão.
Ninguém chega inteiro
do outro lado.
Ainda bem.
Inteiro demais
deve ser uma chatice.
Acendo outro pensamento,
vejo a fumaça subir
e o teto desaparecer.
Não existe teto.
Não existe centro.
Não existe cima.
Só uma pergunta
girando devagar.
E dentro dela
estou eu.
Ou alguém
parecido comigo.
O mundo continua torto.
Deixa.
Eu também.