Verso 1
O futuro bateu na porta,
quando abri, já era agora.
Mal perguntei o seu nome,
virou passado e foi embora.
Perguntei ao meu reflexo:
“Quem está olhando daí?”
Se ele fechar os olhos,
será que eu continuo aqui?
Verso 2
Na praça vendem certezas,
cada qual com seu patrão.
Comprei a minha existência
em prestações de ilusão.
Mas quando a cidade apaga
e ninguém pode me ver,
será que o mundo continua
ou espera eu acender?
Refrão
Se eu sou imaginação,
quem está sonhando a prisão?
Quem fechou todas as portas
por dentro do coração?
Bato o punho sobre a mesa,
sinto a pele se rasgar.
Se alguém está me sonhando,
vai ter que me ver acordar!
Verso 3
O homem lá da tribuna
disse: “Este é seu lugar.”
Era um risco na calçada
que eu não devia cruzar.
Pedi uma prova de mim,
ele exigiu documento.
Meu rosto estava no arquivo.
Não constava o pensamento.
Verso 4
Morei tanto no passado,
deixei o dia lá fora.
Punha dois pratos na mesa
para quem já foi embora.
Hoje o sol bateu no vidro,
vi a poeira se acender.
Abri a janela sem provas:
havia um dia por viver.
Refrão
Se eu sou imaginação,
quem está sonhando a prisão?
Quem fechou todas as portas
por dentro do coração?
Bato o punho sobre a mesa,
sinto a pele se rasgar.
Se alguém está me sonhando,
vai ter que me ver acordar!
Ponte — cantada, crescendo
Se esta voz não me pertence,
por que querem me calar?
Se sou feito de mentira,
por que precisam me comprar?
Rasgo a ordem que me deram,
deixo a dúvida crescer.
Se não sei de onde eu venho,
posso escolher aonde ir!
Verso 5
Saí sem saber se a rua
existia sob meus pés.
Uma mulher na calçada
pediu: “Conte até dez.”
Ela chorava. Eu contei,
fiquei para a escutar.
Esqueci minha pergunta,
vi seu peito sossegar.
Refrão final
Se eu sou imaginação,
quem está sonhando a prisão?
Nossa voz tomou a praça,
interrompeu o patrão.
Bato o punho sobre a mesa,
outras mãos seguem o som.
Se alguém está nos sonhando,
já não manda neste sonho!
Final — cantado
O futuro foi presente,
o presente já passou.
Perguntei se alguém me ouvia,
outra voz me respondeu.
Não provei que eu existia,
nem soube quem me escutou.
Mas o agora tinha um nome
quando alguém me chamou.