[Introdução — som de vento, violão de aço, baixo profundo e violino entrando devagar]
O vento sul não pede licença,
Bate a janela, espalha a lembrança.
Tem coisa que o tempo não leva embora,
Tem voz que ainda mora nas pedras de agora.
[Verso 1 — voz masculina grave, quase contando uma história]
Meu avô conhecia o humor dessas águas,
Pelo risco das nuvens, pelo cheiro da praia.
Sabia a hora da rede, o caminho da canoa,
E o nome dos ventos antes da primeira garoa.
Na beira do rancho, o café esfriava,
Enquanto a maré seus segredos contava.
E a vida, sem pressa de chegar a lugar nenhum,
Tinha o tamanho do dia e o respeito de cada um.
Hoje tem prédio crescendo onde havia quintal,
Tem placa estrangeira cobrindo o nome local.
Mas quando o vento vira e a noite fica fria,
Ainda escuto a velha Ilha respirando em maresia.
[Pré-refrão — a bateria começa a marcar, guitarra no contratempo]
Não me pergunte o preço dessa vista,
Nem quantos verões cabem numa fotografia.
Há um pedaço dessa terra que não cabe no papel:
É o que o povo guarda e o tempo não levou com ele.
[Refrão — melodia marcante, violino respondendo à voz]
O vento sul não pede licença,
A Ilha não esquece a própria nascença.
Pode mudar a rua, o mapa e o cais,
Mas quem conhece a Ilha reconhece os sinais.
É no jeito de falar, no silêncio da canoa,
No café passado e na renda que se entoa.
Enquanto houver memória no fundo desse mar,
A Ilha dos antigos não vai deixar de falar.
[Verso 2 — baixo pulsante, violão e percussão orgânica]
Lá no Ribeirão, a tarde tem outra medida,
A pedra conhece o peso de muita vida.
No Mercado, entre vozes, peixe e pregão,
Cada banca tem um pedaço da nossa formação.
Na Lagoa, o céu se deita sobre a água,
E o morro assiste à cidade trocar de roupa.
Lá na Armação, onde a pesca escreveu seu caminho,
O mar nunca foi paisagem: sempre foi sustento e destino.
Tem mão calejada, tem rede remendada,
Tem gente que levanta antes da madrugada.
E há quem chegue de longe procurando um lugar,
Sem saber que uma Ilha também precisa aprender a cuidar.
[Interlúdio — violino de inspiração regional, guitarra reggae e bateria de banda ao vivo]
Ô, vento sul...
Leva o que é fumaça.
Deixa o que tem raiz.
Que a terra não se esquece
De quem a fez feliz.
[Verso 3 — interpretação mais intensa, guitarra com leve distorção]
Não quero uma Ilha guardada numa moldura,
Nem uma cidade que tenha vergonha da própria cultura.
Quero ouvir o manezês atravessando a praça,
Ver a tradição viva, não somente em dia de festa.
Que o progresso aprenda a sentar na mesma mesa
Com o pescador, com o morador, com a natureza.
Que a ponte não seja só caminho de partida,
Mas um lembrete de que toda travessia tem história e tem vida.
Porque a terra não é herança de quem chega primeiro,
Nem pertence a quem tem mais dinheiro.
É responsabilidade de quem pisa nesse chão,
De quem recebe a Ilha e devolve preservação.
[Ponte — a banda reduz; voz rouca, violão e violino]
Um dia, talvez, meus passos diminuam,
As casas mud