No começo, parecia que a chegada dela ia trazer uma energia nova, daquelas amizades ou conexões que a gente bota fé de cara. Mas não demorou muito para o cenário mudar. O que era para ser parceria virou um campo minado de desconfiança e cobrança.
Ela começou a ver coisa onde não tinha. Uma palavra dita sem maldade virava motivo para cara feia; um silêncio virava uma tempestade de ciúmes. O pior é que parecia que a voz de qualquer terceiro na rua tinha mais peso do que a verdade ali, na cara dela. Bastava alguém soltar uma fofoca boba, um "ouvi dizer", e pronto: ela acreditava de olhos fechados, absorvia o veneno dos outros e trazia para dentro da relação.
Nas conversas, a postura era sempre a mesma. Queria se pintar como a dona da razão, a "gostosona", a fodona que sabe de tudo e nunca erra. Mas a vida real não funciona bem assim; o teto de todo mundo é de vidro.
Havia sempre uma tentativa de relevar, de respirar fundo e tentar entender o lado dela, buscando o caminho mais leve. Só que ela fazia questão de escolher o lado mais difícil. Em vez de conversar e resolver, preferia armar o palco para a discussão, armada com os boatos que ouvia por aí.
Por mais que existisse consideração, o cansaço bateu. Ninguém aguenta viver pisando em ovos ou competindo com o tribunal da fofoca alheia. Naturalmente, o espaço foi surgindo. O afastamento não foi por falta de tentativa, mas por pura necessidade de paz. Afinal, para quem quer ter razão a qualquer custo, o melhor prêmio é a solidão.