Sou louco, sou delírio,
minha voz se perde em ecos.
Chamaram meus passos de erros,
eu nunca dei nome a eles.
Fui por onde não devia,
voltei por onde não dava.
Quando disseram “é o fim”,
eu descobri outra estrada.
Não fui exemplo de nada.
Ainda bem.
Exemplo acaba em moldura.
Eu preferi a parede.
Pode vir.
Pode me buscar.
Se sabe onde eu estou,
não precisa me chamar.
Não vou pedir mais um dia,
nem inventar salvação.
Tenho alguns pecados comigo
e nenhuma explicação.
Se existe um rio entre nós,
eu atravesso quando for.
Não quero ponte nem barco,
não preciso de condutor.
Do outro lado tem o quê?
Não sei.
E quem disse
que eu preciso saber?
Pode vir.
Pode me buscar.
Não tenho medo do escuro.
Já aprendi a enxergar.
Já fiz amor com o perigo,
já dei razão ao absurdo,
já fiquei calado demais,
já mandei às favas o mundo.
Troquei certezas por dúvidas,
troquei juízo por prazer.
Se tudo isso foi pecado,
pecaria outra vez.
Não quero limpar meu nome.
Sujeira também deixa sinal.
Não quero chegar perfeito.
Perfeito é artificial.
Pode vir.
Pode me buscar.
Não traga perdão consigo.
Não tenho onde guardar.
Nobre senhora, se é comigo,
não precisa procurar.
Estou aqui.
Inteiro.
Errado.
Acordado.
Sem nada pra confessar.
Sou louco, sou delírio,
minha voz ainda faz eco.
Se veio cedo, espere.
Se veio tarde, azar.
Mas se chegou minha hora,
pode me buscar.
Não vou pedir outra chance.
Não vou ajoelhar no final.
Vivi como pude.
Errei como quis.
Acertei sem perceber.
Se me dessem tudo outra vez,
eu faria tudo outra vez.
Pode vir.
Pode me buscar.
Não tenho nada
pra me arrepender.
E se ainda resta uma pergunta,
que seja esta antes do fim:
se eu não me arrependo de nada,
quem vai me absolver de quê?