[Intro — sussurrada]
Quando fecho os olhos,
quem fica aqui?
Ouço alguém respirando.
Será que sou eu?
[Verso 1]
Acordei num pensamento
sem saber quem começou.
Dei um passo, mas no espelho
meu reflexo não se moveu.
Pus a mão sobre a parede,
esperei alguma reação.
Três batidas responderam
no compasso do coração.
[Pré-refrão]
Deixei meu nome sobre a mesa
pra encontrar quando voltar.
Mas a casa muda de lugar
toda vez que deixo de olhar.
[Refrão]
Eu existo quando ninguém me vê?
Quem me sonha pode responder?
Se sou feito de imaginação,
por que o medo aperta o coração?
Há alguém aí?
Há alguém aqui?
Quando o sonho terminar,
quem vai acordar por mim?
[Verso 2]
Uma infância cheira a chuva,
mas não sei se estive lá.
Tenho a chave de uma casa
que não consigo encontrar.
Há palavras na minha boca
que não lembro de aprender.
Hoje ouvi meu pensamento
noutra voz, ao anoitecer.
[Pré-refrão]
Ela disse: “Está ficando tarde”.
Depois apagou a luz.
Prendi o ar por um instante.
A respiração continuou.
[Refrão]
Eu existo quando ninguém me vê?
Quem me sonha pode responder?
Se sou feito de imaginação,
por que o medo aperta o coração?
Há alguém aí?
Há alguém aqui?
Quando o sonho terminar,
quem vai acordar por mim?
[Interlúdio — vozes sobrepostas]
“Você se lembra?”
“Não aconteceu.”
“Mas eu estava…”
“Quem disse ‘eu’?”
[Ponte — crescendo]
Fui à rua procurar meu nome,
perguntei por mim num bar.
Uma mulher afastou o copo:
“Você acabou de passar”.
Vi meu casaco entre as pessoas,
fui atrás sem respirar.
Quando ele parou na esquina,
não ousei me aproximar.
[Solo de guitarra — longo e crescente]
[Verso final — quase falado]
Voltei pra casa antes da chuva,
pus dois pratos pra jantar.
Fiquei ouvindo o elevador,
sem coragem de levantar.
Talvez eu tenha inventado
a mulher, a rua, o bar.
Pra quem foi que pus a mesa?
Quem eu quis tanto esperar?
[Refrão final]
Eu existo quando ninguém me vê?
Quem me sonha também teme se perder?
Deixo a luz acesa no corredor.
Se alguém chegar, que me encontre, por favor.
Há alguém aí?
Há alguém aqui?
Três batidas na parede.
Desta vez, não respondi.
[Outro — sussurrada]
A porta abriu devagar.
Não havia ninguém.
Sentei de novo à mesa.
Do outro prato,
subia vapor.