Come pão com ovo,
mas o telefone é iPhone.
Come sardinha em lata,
mas desfila de carrão.
A geladeira faz eco,
não tem nada pra jantar,
mas tem Perrier na mesa
com o rótulo pro lugar.
No pulso mora um Rolex,
na carteira, ventilação.
Abre o banco no aplicativo,
fecha por precaução.
Parcela aqui,
financia acolá,
empurra a fatura
pra depois se virar.
E o salário, coitado,
mal consegue aparecer:
entra pela porta da frente
e já mandam ele correr.
É o rei na barriga!
É o rei na barriga!
No bolso não tem nada,
mas a pose é de família rica.
É o rei na barriga!
É o rei na barriga!
A geladeira está vazia,
mas a água é chique.
O carro fica na porta
pra vizinhança conferir.
O iPhone fica na mesa
pra ninguém deixar de ver.
O relógio marca as horas,
mas isso é quase um detalhe.
Se fosse só pra ver o tempo,
tinha um de quinze reais.
E a água veio da França,
isso é fundamental.
Porque sede brasileira
já ficou muito nacional.
O pão com ovo é discreto,
a sardinha também é.
Não têm grife, não têm pose,
mas seguram o cidadão de pé.
É o rei na barriga!
É o rei na barriga!
O cartão pedindo arrego,
mas a pose continua rica.
É o rei na barriga!
É o rei na barriga!
A conta está no vermelho,
Sua Majestade nem liga.
Não é ostentação.
É administração da aparência.
Dinheiro é uma questão financeira.
Pose...
é questão de competência.
Se não dá pra ser rico,
não precisa desanimar:
divide em doze vezes
e começa a interpretar.
Tem iPhone?
Tem!
Carrão?
Tem!
Rolex?
Tem!
Perrier?
Tem!
Dinheiro?
...
Tem limite no cartão?
...
Tinha.
É o rei na barriga!
É o rei na barriga!
No bolso venta forte,
mas ninguém vê a ventania.
É o rei na barriga!
É o rei na barriga!
O cartão perdeu a fé,
Sua Majestade ainda confia.
Come pão com ovo,
sardinha quando tem.
Perrier pra acompanhar,
porque ninguém é de ninguém.
E assim segue o reinado,
com elegância e leveza:
o rei mora na barriga...
...pena que o almoço
não chegou à mesa.