Sou caboclo matuto, criado no sertão
Mão cheia de calo da lida no chão
Peguei foice e enxada desde pequenino
Aprendi a amar esse meu cantinho
Quando chega o tempo de preparar a terra
Não paro um instante, não largo da ferramenta
Semeio o milho e planto o feijão
Com a bênção de Deus e boa intenção
Meus pais e meus irmãos vão ao meu lado
Com vasilha de semente, todo animado
É uma alegria que não tem tamanho
Ver nossa esperança brotando no ramo
Não tenho riqueza, nem grande fortuna
Só um pedaço de terra que é minha fortuna
Dá o que comer, não nos deixa faltar
E dois bois de carga pra me ajudar a trabalhar
Caprichoso e Azulão, meus companheiros fiéis
Puxam o carretão por caminhos e léguas
De manhã cedinho o galo já cantou
Espantou a escuridão, o dia já raiou
No terreiro a vida é cheia de movimento
Tenho três vacas que dão alimento
Com o leite fresquinho eu faço o queijo
E um requeijão bom que é nosso desejo
Café bem forte socado no pilão
É o primeiro gosto do meu coração
Tem broa de panela saindo do forno
E biscoitão gostoso que é nosso retorno
Acendo o cigarro, solto a fumaça ao ar
Vou cuidar da obrigação, tenho que trabalhar
Vejo o cafezal todo florido e bonito
E o milho brotando, crescendo bendito
Essa é a alegria de aqui morar
No meu sertãozinho que eu sei amar
Não tem rádio, nem televisão pra ver
Mas tem coisa melhor que faz viver
Nossa diversão é cantar modinha ao luar
Tocar violão até o dia clarear
Não sei ler nem escrever, nunca estudei não
Mas na barganha eu sou campeão, meu irmão
Nunca fui ao médico, nem tomei injeção
O ar puro da roça é minha proteção
Água da nascente, sol que aquece o chão
É remédio da vida, é a minha salvação
Eu e minha família temos devoção
Guardamos a fé dentro do coração
Somos felizes com o que Deus nos deu
Aqui no sertão, ao lado de Jesus, meu Deus