No clarão do fogão a lenha
Um menino sonhava além da janela
Casa simples, chão batido
Mas um coração puro e sofrido
Com a avó, a mãe e os irmãos
Aprendeu cedo o valor do pão
Mesmo humilde, cheio de amor
Mas carregava vergonha e dor
Aos dezoito conheceu seu luar
Ela aos vinte e um veio pra encantar
Linda mulher, dona de um olhar
Que fez seu mundo inteiro mudar
Mas o medo falou mais alto então
Escondeu a verdade no coração
Inventou que a mãe não deixava
Que sua avó também recusava
Não era falta de amor, era medo de mostrar
A simplicidade do seu lar
Fogão a lenha, vida singela
Temia perder o brilho dela
Ela chorava sem entender
Por que não podia conhecer
A família do homem que amava
Enquanto a dúvida aumentava
Sua mãe dizia: “Minha filha, vê
Essa família não quer você
Você merece alguém melhor
Que te assuma sem tanta dor”
E assim o destino se afastou
Outro caminho ela encontrou
Mas o tempo nunca apagou
O amor que o silêncio separou
Hoje quando os olhos se cruzam
As memórias ainda recusam
Aceitar que tudo acabou
Por um medo que nunca falou
Era só uma casa simples no chão
Mas virou muralha no coração
Se ele tivesse coragem pra dizer
Talvez o amor pudesse viver
No calor daquele fogão
Ainda existe recordação
De um amor que o orgulho calou
E o tempo jamais levou
Porque existem histórias assim
Que não tiveram o verdadeiro fim
Só ficaram perdidas no olhar
De quem nasceu pra se amar.