Sou Roberto Aguiar Barbosa motorista
De aplicativo da Zona Leste cidade de São Miguel Paulista a cidade que não dorme
Capítulo 1: O sol ainda não acordou
O relógio marca 4h40 da manhã. A casa está calma, só o som suave da respiração de quem ainda dorme. Eu passo devagar pelo quarto das crianças, vejo-os ali, enrolados nos cobertores, e sinto aquele nó no peito: é por eles que eu saio antes do sol nascer. Beijo a testa de cada um, sem fazer barulho. Minha esposa me olha com aquele olhar que diz “vai com Deus, e volta inteiro”.
A chave gira na ignição. O carro ronca, companheiro fiel, e eu saio para as ruas da Zona Leste. São Miguel, Itaim Paulista… ainda escuro, mas já com vida. Os postes de luz espalham um brilho amarelo sobre o asfalto, as lojas ainda fechadas, só os primeiros padeiros abrindo as portas, o cheiro de pão quente misturado ao ar fresco da madrugada.
Pego a primeira corrida. Uma senhora, cabelos brancos arrumados com carinho, vai para o hospital visitar o marido. — Obrigada, meu filho — diz ela, com voz doce. — Sempre tenho medo de andar tão cedo. Eu sorrio pelo retrovisor: — Pode deixar comigo, senhora. Chegaremos bem.
E naquele instante percebo: não é só levar pessoas de um lugar ao outro. É carregar histórias, medos, esperanças. Cada passageiro traz um pedacinho do mundo, e eu os levo com cuidado, como se fossem família.
Capítulo 2: Ruas que contam histórias
O sol sobe devagar, pintando o céu de laranja e dourado. O trânsito começa a crescer, as avenidas ganham gente. Conheço cada buraco, cada esquina que viu meus filhos crescerem, cada ponto onde eu e minha esposa nos encontrávamos quando éramos mais jovens.
Um rapaz entra no carro, com mochila pesada e olhar cansado. — Trabalho no centro, e estudo à noite — conta. — Às vezes acho que não aguento mais. Eu digo a ele, sem tirar os olhos da rua: — Eu também já pensei isso. Mas veja: cada quilômetro é um passo mais perto do que queremos. Não corra além do seu tempo. Ele fica calado. Ao sair, sorri: — Obrigado, motorista. Preciso ouvir isso.
Chove de repente, forte, como só em São Paulo sabe chover. Os limpadores correm sem parar. Vejo as luzes se multiplicarem no asfalto molhado, e lembro dos dias difíceis: quando o dinheiro apertou, quando o carro quebrou, quando cheguei em casa exausto e achei que não tinha forças. Mas sempre tinha um abraço esperando, um “vai dar certo” dito com firmeza.
Capítulo 3: O verdadeiro destino
A noite cai. As luzes da cidade brilham como um mar de estrelas no chão. Finalizo a última corrida e mudo o rumo. Não para nenhum endereço de aplicativo, mas para a minha rua.
Vejo a luz da janela acesa. Eles me esperam.
Entro devagar. O cheiro de comida caseira, o som das vozes, crianças correndo para me abraçar, mãos pequenas agarrando minha camisa. Minha esposa chega perto, me olha nos olhos, e aquele olhar apaga todo o cansaço do dia.
Sento à mesa. Não importa quantos quilômetros eu percorri, quantas ruas cruzei, quantas históri