CAPÍTULO 1 — O PRIMEIRO SINAL
Às 5h da manhã, a Zona Leste tem um cheiro especial: café recém-passado, pão saindo do forno e um ar fresco que logo vai embora. Eu liguei o carro, ajustei o banco, coloquei a música que me acompanha todos os dias e abri o aplicativo.
A primeira corrida sempre é especial. Foi lá em São Mateus. Uma senhora de óculos escuros na cabeça, com uma bolsa apertada.
— Bom dia, filho. Vai até o terminal, por favor. O ônibus não passou de novo.
Conversamos pouco, mas o silêncio era amigo. Ela me contou que trabalha numa padaria há 22 anos. Que o filho estuda à noite. Que a vida é dura, mas vale a pena. Paguei a passagem com mais do que dinheiro: paguei com respeito.
Na Zona Leste, a gente não só leva pessoas. A gente carrega histórias.
CAPÍTULO 2 — RUAS QUE CONTAM HISTÓRIAS
Eu conheço cada avenida como a palma da mão:
- Avenida Calim Eid quando o trânsito para e o tempo parece parar junto;
- Itaquera nos dias de jogo, onde a gente vê alegria e também correria;
- Sapopemba que nunca dorme, com gente indo e vindo o dia todo;
- São Miguel Paulista onde as famílias caminham devagar à noite.
Já peguei alunos correndo para a faculdade, trabalhadores cansados voltando para casa, mães com crianças dormindo no colo, idosos que pedem para ir devagar porque gostam de ver a cidade.
Tem dia que o trânsito aperta. Tem dia que o sinal fecha tudo. Mas eu aprendi: a pressa não ganha a corrida. Quem chega bem, chega primeiro.
CAPÍTULO 3 — CHUVA E SOL, SEMPRE EM FRENTE
A Zona Leste muda com o tempo. Quando chove, as ruas enchem depressa. Já parei para ajudar alguém com o pneu furado, já dei carona para quem não tinha dinheiro, já esperei a senhora atravessar a rua com cuidado.
— Moço, você é diferente — ouço muito isso.
— Não, senhora. Eu sou igual a você. Trabalho com dignidade. Respeito é o combustível que não acaba.
Tem dias difíceis também. Corrida longa por pouco dinheiro. Passageiro que não diz bom dia. Mas eu não deixo isso me levar. O meu carro é o meu espaço, e onde eu passo, eu levo bondade.
Quando o sol brilha, a Zona Leste fica linda. As árvores nas calçadas, as crianças na praça, as lojas abertas… É a minha terra. É onde eu construo o meu amanhã.
CAPÍTULO 4 — NOITES QUE NÃO ESQUECEREI
A noite traz outras histórias. O brilho das luzes, o movimento diferente.
Um dia, um rapaz entrou no carro e disse:
— Senhor, estou perdido. Não sei se vou conseguir.
Eu olhei pelo retrovisor:
— Meu filho, a Zona Leste já viu muita gente começar do zero. Eu também comecei assim. O volante está na mão, mas quem escolhe o caminho é você.
Descemos a avenida em silêncio. Quando ele desceu, sorriu pela primeira vez:
— Obrigado. Vou tentar de novo.
Isso é o que me faz continuar. Não é só o
O sol já se põe, mas eu ainda estou aqui. O celular brilha de novo. Nova corrida.
Amanhã, volto antes do sol. Vou percorrer as mesmas ruas, encontrar rostos novos, levar gente aos seus destinos. E cada vez que a