Título: O Canto e a Justiça
(Verso 1)
Lá naquela gaiola, pequena e apertada
Um canário canta triste, a madrugada
Não fez mal a ninguém, não roubou, não feriu
Mas vive ali preso, sem saber por quê disso
Canta pra afogar as mágoas que sente no peito
Pulando de um poleiro pro outro, sem jeito
Vendo o sol lá fora, mas sem poder voar
Pagando por uma culpa que nunca cometeu
Enquanto o mundo lá fora parece se perder
(Verso 2)
E lá vai um homem, livre na estrada
Com a vida manchada de muita pancada
Cometeu vários crimes, machucou muita gente
Mas segue solto, como se nada fosse diferente
A lei passa por ele como vento na porteira
E ele ri da justiça, faz o que bem querer
Enquanto um inocente não pode nem escolher
O caminho que seus pés devem percorrer
(Verso 3)
E me lembro daquela notícia que partiu meu peito
Uma mulher numa estátua, apenas um gesto feito
Passou um batom, num ato simples, sem maldade
E recebeu quatorze anos de escuridão e grade
Quatorze anos! Por um risco de batom na pedra?
Enquanto o crime anda solto pela estrada inteira
Isso não é justiça, isso é confusão
Que aperta o peito e machuca o coração
(Refrão)
Hoje o mundo tá assim, virou de ponta-cabeça
Quem tá certo tá errado, e quem tá errado é quem cresce
Quem não deve nada vive atrás de uma grade
E quem fez mal caminha livre pela cidade
O canário canta e afoga suas mágoas no canto
Pulando de um poleiro pro outro, tanto e tanto
E a justiça parece que às vezes se enrola
Mas eu confio naquele que tudo vê e sabe
(Verso 4)
Não é meu julgamento, é só o que os olhos veem
Uma balança torta que não equilibra ninguém
Mas o canto do canário não vai se calar
Pois a verdade um dia há de se levantar
Pode demorar um dia, pode demorar anos
Mas Deus não se esquece de nenhum dos seus planos
Ele vê o canário preso e o bandido solto também
E a justiça Dele é a única que vem de além
(Final)
Um dia a gaiola vai se abrir, eu creio
E o canário vai voar, livre, sem receio
Porque lá no céu a balança é reta e verdadeira
E o tempo de Deus é a única certeza inteira.