Atravessei estações, sem mapas, sem nada,
Uma luz na janela, no último andar.
Até que, entre casacos molhados na plataforma,
Teu olhar fez a estação inteira parar.
[VERSO 1]
Eu já sabia o calor do teu abraço,
Antes de tuas mãos tocarem as minhas.
Guardava teu nome no canto de um caderno,
Entre velhos recibos e fotografias.
Já tinha soltado as rédeas do passado,
Deixado a poeira cobrir o caminho.
Mas, numa rua molhada depois da chuva,
Teu rosto surgiu quando eu ia sozinho.
Tu me olhaste — o relógio da estação parou,
Um copo caiu, e o silêncio se quebrou.
Não sei se foi vertigem, susto ou presságio,
Só reconheci tua voz antes do abraço.
EU TE ENCONTREI! EU TE ENCONTREI!
Depois de tantos desvios, a noite te trouxe a mim!
Meu peito guardou o som da tua chegada,
Tu eras a cadeira vazia ao meu lado no fim da estrada!
EU TE ENCONTREI! NÃO VOU FUGIR!
Se o tempo nos separou, hoje fez coincidir!
Cruzei cidades sem saber teu paradeiro,
E agora estás aqui, tão perto de mim,
Como a foto esquecida entre as páginas de um livro inteiro!
Tu disseste meu nome à porta do cinema,
Com a pausa de quem já me conhecia.
Havia chuva presa nos fios do teu cabelo,
E minhas mãos tremiam enquanto a rua se esvaziava.
Não precisamos refazer tudo desde o começo,
Nem medir o passado com a régua da razão.
Bastou teu abraço, o casaco nos meus ombros,
E o cheiro de café subindo da estação.
Desta vez, não há bilhete oculto na gaveta,
Nem mala esperando ao lado do portão.
Não sei quantas ruas nos trouxeram até aqui,
Mas quero aprender teu nome à luz do dia.
Não quero te amar como quem olha um retrato,
Nem morar para sempre num sonho interrompido.
Quero conhecer teus medos, teus risos, domingos,
E dividir contigo o pão quente do dia vivido.
EU TE ENCONTREI! EU TE ENCONTREI!
Depois de tantos invernos, o sol entrou no corredor!
Se cidades e fronteiras nos fizeram separados,
Hoje cruzamos juntos a ponte sobre o rio encantado!
Que os prédios se acendam, que a cidade escute,
Que o tempo guarde esta escolha no bolso do casaco!
Não precisamos jurar a eternidade inteira,
Se podemos plantar manjericão na janela,
E acordar lado a lado, sob a mesma luz
Talvez eu te amasse antes de haver nomes,
Talvez seja a primeira vez que te vejo assim.
Mas quando tua mão encontrou a minha,
O ruído da rua se perdeu em mim.
Atravessei estações, sem mapas, sem nada…
E foi nesta vida
Que o caminho terminou em ti.
Desta vez…
Fica comigo até o amanhecer.