Acordei com gosto de noite,
Mesmo o sol querendo entrar.
Tinha alguém na minha cabeça
Que não parava de cantar.
Acendi uma lembrança,
Vi a fumaça subir.
Perguntei quem estava dentro.
Uma voz falou:
Deixa eu sair.
Eu ri.
Quando a gente enlouquece
Ninguém precisa explicar.
Tem verdade que só aparece
Quando a razão vai passear.
Tinha outra em mim,
Batendo pra sair.
Uma queria ficar quieta,
A outra queria explodir.
Tinha outra em mim.
Talvez tivesse mais.
Uma chorava pelo ontem,
Outra chutava o ontem pra trás.
Calcei minhas botas erradas,
Saí sem saber onde ir.
A rua perguntou meu nome.
Mandei a rua decidir.
Entrei num bar quase vazio.
O garçom quis saber:
O que você quer esquecer?
Eu disse:
Se eu soubesse,
já tinha esquecido.
Ele riu.
Eu também.
Ninguém entendeu.
Tinha outra em mim,
Arranhando o coração.
Uma implorava por silêncio,
Outra queria confusão.
Uma amava feito louca,
Outra não queria ninguém.
Uma gritava:
Vai embora!
A outra:
Volta, meu bem.
Pedi um blues pra madrugada,
Ela trouxe um temporal.
Minha garganta virou fogo,
Meu juízo passou mal.
Dancei sozinha com a sombra
Até a sombra desistir.
Quebrei meu salto no passado
E fui descalça por aí.
Encontrei meu destino
Na porta de algum bar.
Perguntei:
Você me conhece?
De algum lugar.
Eu vou ficar bem?
Vai ficar.
Quando?
Não sei.
Onde?
Por aí.
Com quem?
Com você.
Qual delas?
Aí eu não sei dizer.
Foi quando comecei a rir.
Rir alto.
Rir rouco.
Rir de mim.
Passei a vida inteira
Procurando quem eu era.
Talvez eu fosse todas.
A santa.
A louca.
A fera.
A que ficou.
A que fugiu.
A que amou.
A que mentiu.
A que morreu algumas vezes
E mesmo assim não desistiu.
Tinha outra em mim.
Agora eu sei.
Sempre teve.
Talvez fossem duas.
Talvez dez.
Talvez nenhuma.
Talvez eu seja apenas
Essa bagunça toda junta.
E se amanhã eu acordar
Sem saber quem sou outra vez,
não tem problema.
Abro a porta.
Sirvo dois copos.
Sento comigo.
E espero
pra descobrir
qual de nós
vai beber primeiro.