Você, vestida de manhã.
Há em você um jeito de manhã clara,
de quem acordou em paz com o mundo,
sentada sobre o branco,
como se o branco fosse extensão dela.
O sorriso não faz barulho,
ele chega devagar,
como quem pede licença para ficar.
Nos olhos, uma luz tranquila,
de quem carrega o dia com leveza.
A camisa branca, larga,
é quase um abraço solto,
um gesto de simplicidade,
que diz: não preciso de muito
para ser inteira.
Os cabelos presos, a cabeça levemente inclinada,
como quem escuta o próprio coração.
As mãos quietas, juntas,
guardando um segredo bom, um desejo,
um pensamento que sorri por dentro.
Há nela uma delicadeza que não se ensaia,
uma beleza que não pede,
apenas é.
Como o lençol macio onde descansa,
como a luz que entra sem pressa pela janela.
Ela lembra casa,
lembra domingo sem relógio,
lembra colo,
lembra aquela calma rara
que a gente encontra e quer ficar.
Se a paz tivesse um retrato,
talvez fosse assim:
pés descalços tocando o chão,
alma descalça tocando o céu,
e um sorriso que fica na gente
mesmo depois que a foto acaba