Eu sou carvรฃo.
Nรฃo sou metรกfora frรกgil, sou corpo negro extraรญdo da terra,
queimando no motor lento do Estado Angolano.
Combustรญvel da mรกquina que me nega.
Energia barata na conta dos ricos
e cinza amarga nos olhos dos pobres.
Ardem-me as margens de Cuanhama,
onde o centro administrativo se ergue como se governasse o deserto.
Ah! Cunene, em ti, o povo aprendeu a nรฃo nascer com expectativas,
pois a esperanรงa em ti, รฉ um artigo tributado.
Eu sou carvรฃo.
Onde o preรงo do combustรญvel
รฉ tambรฉm preรงo do silรชncio imposto.
ร o imposto sobre o direito de ir,
sobre o direito de vir e vรก, ao mesmo,
sobre o direito de levar os filhos ร escola sem pedir boleia ร morte.
Na marcha nรฃo levo apenas um cartaz.
Levo geraรงรตes de silรชncios enterrados,
Levo os nomes apagados das crianรงas
que morreram antes de aprender a dizer โAngolaโ.
Sou Cahama e sua lavoura estรฉril.
Onde o tempo apodrece e a terra assobia
a ausรชncia da chuva e da justiรงa.
Sou Curoca, seu povo Vatwa. Himba, Ngambwe, Tchimba,
onde a cultura resiste sem patrocรญnio e os saberes antigos,
tratados como ruรญnas em vez de ciรชncia viva.
Sou Cuvelai, onde a lama da enchente
se mistura ร lama moral de quem nos governa,
inundaรงรตes, inundaรงรตes atรฉ no combustรญvel.
Sou Namacunde, fronteira que separa
o nada do outro lado do nada.
Sou Ombadja, berรงo de reis ancestrais
que hoje รฉ tรบmulo da dignidade popular.
Comprados pela mรกquina que me nega
Tambรฉm servem de energia barata para queimar o povo.
Eu sou carvรฃo.
E me consomem brutalmente,
movimento os carros que nรฃo posso ter,
as cidades que nรฃo me pertencem,
as decisรตes que nunca me consultam.
Eu sou carvรฃo, patrรฃo
E me consomem brutalmente, patrรฃo!
๐๐ท๐ธ๐ฟ๐พ๐ฝ๐ถ๐ฐ,
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