Quando eu partir de Curoca…
vou levar poeira nos sapatos
e saudade presa no peito…
Vou sentir falta
do vento quente do fim da tarde…
do silêncio das noites compridas…
e do tambor chorando longe na aldeia…
Sentirei saudades…
Das fogueiras acesas no terreiro…
dos velhos contando histórias devagar…
das crianças correndo atrás do pôr do sol…
como se o tempo nunca fosse acabar…
Ah Curoca…
Terra dura…
mas cheia de alma…
Talvez o mundo lá fora seja grande…
tenha luzes… carros… dinheiro…
mas nenhuma cidade vai conhecer meu nome
como tu conheces…
Porque tu viste meus primeiros passos…
ouviste minhas primeiras lágrimas…
e guardaste meus sonhos
debaixo desse céu do sul…
Quando eu estiver longe…
talvez numa rua sem poeira…
vou fechar os olhos devagar
só pra ouvir outra vez:
o vento passando nos currais…
o boi caminhando ao amanhecer…
e a kizomba triste tocando baixinho
nas noites de luar…
Velho Shiponga dizia:
“Filho…
quem bebe água de Curoca
nunca parte por inteiro…”
E é verdade…
Porque mesmo distante…
uma parte de mim
vai continuar sentada naquele chão…
admirando o sol morrer devagar
sobre a terra vermelha do Cunene…