A parede de pedras escorre um melado,
Que cheira a jasmim e a corpo sem vida.
O teto de vigas se curva pesado,
Guardando a doçura na madeira podre.
No centro da sala, a lareira sem fogo
Esquenta uma sopa de açúcar e fel,
A bruxa sorri, mestre antiga do jogo,
Que trança a cortina com fios de mel.
Por fora é um abrigo de pão e confeito,
Por dentro é o mofo, o ferro e o horror,
O chão de osso moído e perfeito,
Disfarça a podridão sob o doce sabor.
O mofo que cobre as tapeçarias antigas,
As moscas presas em caldas de toucinho,
As paredes arranhadas por unhas amigas,
Que buscaram saída por aquele caminho.
Na mesa de carvalho, as velas de cera
São feias e feitas de graxa e de gordura,
E a fruteira de ferro guarda a quimera
De maçãs que sangram sua podridão pura.
Pelas prateleiras, vidros alinhados
Guardam dentes de leite e mel de vespeiro,
Doce de figo com vermes afogados
E o cheiro de calda no ar do necrotério.
Um tapete de teia, felpudo e pesado,
Esconde os ossos roídos do soalho,
E um espelho de bronze, trincado e turvado,
Devora a beleza de quem olha no entalho.
Ela serve o prato em louça rachada,
Com calda espessa de tom escarlate,
Uma torta fria, de massa queimada,
Recheada com fel e falso chocolate.
“Prove um pedaço”, ela diz com brandura,
Oferecendo a taça de licor azedo,
Onde boia um cravo de cor escura
E o sumo amargo de um antigo segredo.
O caldo ferve sem chama ou calor,
Soltando fumaça de cheiro adocicado,
Que entorpece os sentidos, tira a dor,
Enquanto a carne se desfaz no bocado.
A primeira garfada é um doce veneno,
A segunda desce como ferro cortante,
E no olhar da bruxa, calmo e sereno,
O visitante percebe que é o prato da estante.
O corpo repousa, de pele assentada,
Lado a lado às louças da prateleira,
Sua voz contida, sua vida encerrada,
Tornou-se adorno para a mesa de feira.
A bruxa recolhe a taça sem pressa,
Limpa as migalhas de osso e confeito,
A noite se cala, cumpriu sua promessa,
No silêncio frio do abrigo perfeito.
A porta se fecha com ranger soturno,
A névoa lá fora volta a cobrir,
E no doce cheiro do ar noturno,
A casa espera quem mais vai vir.